terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Vertigem

Não sei você, mas as vezes me sinto meio tonto, varrendo foto com o dedo como quem escolhe feijão, mal-te-quero bem-te-quero, semicritério só querendo, sem culpa, temperar o tédio dos lençóis perfeitamente esticados, perfumados, secos, silenciosos, sedentos.
Hoje quero tudo, amanhã quero ao contrário, e essa carência de não querer mais que bem querer, fome de desejar, vai e vem na velocidade da volúpia, volátil e volúvel como o balançar bailarino daqueles cachos acachoeirando-se no desfazimento de uma trança tão apertada como o meu coração na garganta.
E a verdade é que, ainda que falasse as línguas dos homens e falasse as línguas dos anjos, não se fartaria a língua de lamber saliva enquanto houver sabores, tantas bocas quanto flores, traduzindo em gemido e suspiro as gramáticas dos quereres.
Às vezes a gente se sente meio tonto, redemoinho que cai pra cima, dervixes espiralando prece e êxtase, pipa cortejando brisa, e só é pena que o medo mudo do mundo concreto desacredite a virtude da vertigem.
Voa, passarinho, voa. Teu ninho é feito de carnaval.

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