Esta é uma história pra quem tem estômago.
Noite de sexta, tinha tudo pra dar certo. Dia produtivo, figurino na estica e tinha um date pra dali a pouco. Vinha eu então pela rua, ensaiando tranquilamete o xaveco na cabeça, quando me deparei com o cheiro irresistível de gordura pingando na brasa. Nunca me esquecerei deste momento, do fundo das minhas entranhas fatigadas, que tinha um churrasquinho no meio do caminho.
— Ba'noite, moça. Me vê um de carne, faz favor.
— Carne acabou, filho. Esse aqui é coração de boi, prove pra cê vê que delícia.
— Coração de boi, é?
— De boi, sim. Já comeu?
— Uma vez, faz um tempo. Humm... tá, por que não? A noite é uma criança, né?
— Farofinha, molho de alho?
— Ô! Gradecido.
Paguei e segui satisfeito pro chamego, saltitante e serelepe sob o luar, com um coração de adolescente no peito e um de coração de boi no espeto, um deles um tanto quanto fibroso, é bem verdade, além do excesso de gordura, e tinha uma textura aerada e pastosa que meio que lembrava uma esponja de pia velha, sabe, quando a esponja vai ficando borrachuda, segurando água e soltando os pelinhos e aí já mais suja do que limpa mas você não joga fora pensando que de repente ainda serve pra esfregar aquelas crostas nojentas de musgo preto do meio do azulejo, sabe? Então, meio isso, só que de carne escarlate-arroxeada, mas até que com bastante molho de alho e farofinha quebrava um galho legal.
Tinha tudo pra dar certo.
Chegando no ponto de ônibus, comecei a sentir uma fermentação. A respiração ficou difícil, tinha alguma coisa empurrando meus rins pra dentro das costelas. Suspirei com a mão no plexo solar, no meio do caminho entre os dois corações que coabitavam animosamente meu corpo. Por sorte, do outro lado da avenida havia uma farmácia. Comprei um luftal genérico, pedi um copo d'água e mandei vinte gotas pra dentro. Instantaneamente o placebo já me fazia sentir leve e novamente apto às minhas belíssimas más intenções da noite.
Entrei no ônibus e comecei a sentir o remédio fazer efeito. Minha avó dizia que se tá ardendo, é porque está funcionando. Cara, cê não imagina como tava ardendo... Quando chegou no meu ponto, tinha uma panela de pressão apitando na minha barriga. Encostei a mão na parede, olhei pro fundo da minha alma e pensei: ô merda.
Tudo bem, eu disse, tudo bem, é o remédio trabalhando. No pain no gain. Só preciso andar uns quarteirões, dar uma lubrificada nas engrenagens, respirar o ar puro dessa avenida movimentada enquanto meu corpo expulsa esse ar profano de dentro de mim. Vai dar tudo certo, eu disse. Relaxa e confia.
Mandei uma mensagem dizendo que ia atrasar um pouco, ela disse que tudo bem, tinha uns amigos por lá e ainda ia passar no mercado pra comprar mais cerveja, e eu pensei que é isso aí, sem drama, daqui a pouco eu vou estar tinindo e a gente vai estar rindo disso tudo, hahaha, como é bom ser jovem e ingênuo, não é mesmo? Então saí andando, mas a cada passo que eu dava, mais grávido ficava. Despontou uma fisgada aguda na virilha e eu me torci no passinho do romano urrando um uuuuui tão doído que já me dói de novo só de lembrar. Foi quando me dei conta de que eu não fazia ideia de como era o lugar pra onde eu estava indo, e portanto não sabia a distância entre o banheiro e a sala. E se o banheiro tivesse aquelas portas de treliça que não bloqueiam som nenhum, que dirá cheiro então? Eu não podia correr o risco de libertar lá o leviatã que me devorava por dentro. Afinal, como é que você vai na casa de alguém, faz uma brutalidade dessas no banheiro dela e depois ainda tem a pachorra de querer dar uns amassos como se nada tivesse acontecido? Não, sem chance, minha mãe não me criou pra isso. Quando consegui abrir os olhos, decidi que precisava tomar uma atitude mais drástica. Vi ao longe um mercado e decidi que let's bring the big guns.
Te falar que, se tem uma droga que eu consumo com muita parcimônia e receio, é coca-cola. Primeiro, porque, venhamos e convenhamos, o gosto é nojento. Segundo, porque esse xixi de belzebú me deixa mais ligadão que maratona de Dr Who. Mas tempos desesperados pedem medidas desesperadas. Entrei no mercado na fissura, vasculhei os corredores mas não achei uma geladeira de refrigerante. Só tinha coca quente. Suspirei. No pain no gain. E a dor esquentando. Na fila do único caixa, um casal de velhinhos tentava ar-du-a-men-te pagar as compras, mas o talão de cheques estava dando um baita olé neles. Uma onda de dor gongou meu saco, e eu tive um leve ataque de pânico.
Saí do mercado tropicando pé, catando cavaco e achando que ia morrer, mas uma lufada de ar noturno com escapamento de caminhão queimando óleo me trouxe de volta à realidade. Refeito do susto, avistei uma biboca simpática do outro lado da avenida e decidi que ali seria um bom lugar para o meu expurgo.
Pedi finalmente o diacho da coca-cola, sentei no balcão e aproveitei pra mandar outra mensagem pra a moça. Eu estava a dois quarteirões da casa, mas não tinha a menor condição. Não bastasse, meu celular estava com 7% de bateria. Abri então a mochila e descobri que, como todo castigo pra trouxa é pouco, eu tinha esquecido o carregador em casa. Pensei que então pois comigo mesmo: ô merda.
Terminei minha lata de desinfetante e fui pro banheiro do botequinho. Naquele cubículo azulejado eu descobri um novo significado pra a palavra frustração. Mais de trinta minutos passados desde o luftal e nem sombra de peido dera as caras por aquelas bandas. Tentei todos os alongamentos possíveis de serem executados por um cara constirpado agonizando numa privada: torci, puxei, dobrei repuxei, retorci, fiquei de pé e dei uns pulinhos, mas só consegui irritar o alien mais ainda. Tentei uma massagem, mas rasgava muito pior. Desesperado, esguichei luftal direto na garganta. Mandei uma mensagem pro broto dizendo que eu queria morrer.
De repente, fui tomado por um pensamento idiota: aquilo devia ser apendicite. Só podia. Não era possível que um simples pum fosse a causa de tamanha barbárie. Fiz o teste do toque no apêndice, mas como não deu nada, concluí que eu é que devia estava fazendo errado, tinha que ser, porque aquela porra era uma apendicite supurada sim E PONTO FINAL!
Arrisquei gastar mais um pouco da parca bateria pra procurar no google como autodiagnosticar apendicite. Vi que eu estava certo sobre estar errado e me senti duas vezes burro, o que me distraiu por um minuto do parasita gasoso corroendo minhas entranhas. Me animei a vestir as calças e encarar o mundo lá fora. Imaginei que o rapaz da lanchonete devia estar intrigado sobre os vinte e tantos minutos que passei no banheiro, então já saí me justificando:
— Cara, comi um espeto que me zuô le-gal, taqueopariu mano, não lembro de quando foi que eu senti tanta dor na vida, tá loko...
Silêncio grave. Ele olhou pra mim, eu olhei pra ele, eu olhei pro outro cliente no balcão, o outro cliente olhou pra mim e eu vi que o rapaz estava justamente entregando um espetinho de frango pra o outro cliente que, por um minuto, me pareceu confuso porém agradecido, mas talvez fosse mesmo nojo e desprezo, ou talvez só sono e fome, difícil dizer naquele contexto.
— Hã... tipo... um espeto na rua... mais cedo, não aqui... coração de boi... eh... quanto foi a coca?
Saí do lugar um pouco constrangido, mas sejamos sinceros, o que é um peido pra quem... não, espera... não, nesse caso acho que não. Enfim. Saí do lugar, mas não consegui ir muito longe. Andei dois metros e desabei na parede de uma casa. Eu simplesmente não podia mais carregar aquilo comigo, era ele ou eu. Decidi que se não ia por bem, ia por mal. Eu ia vomitar aquele demônio. Me acheguei da borda da rua, curvei a cabeça em saudação à sarjeta — que simbolizava tão bem a minha situação — e meti o fura-bolo goela abaixo. Tossia e grasnava aquele barulho asqueroso de ganso headbanger, mas não saía nada. Eu me esforcei muito mesmo, ao ponto que alguém na casa acendeu as luzes e foi pra janela ver quem seria o cretino a gorfar grotescamente o frontispício da sua residência.
Assustado, escorei na parede vizinha e lá fiquei. E fiquei. E fiquei. A dor me pegou de um jeito que eu simplesmente não conseguia mais me mexer. Fiquei lá, em plena Corifeu, empacado e me retorcendo. Quase que dava pra enxergar a casa da mina, o celular com 4% de bateria, meu intestino cheio de prego, as pernas bambas se fazendo de surdas. Respirei fundo e concluí: ô merda.
Era hora de pôr os pés no chão. Mandei uma mensagem pra a garota pedindo as mais sinceras desculpas pelo desarranjo, mas que sabe como é, são forças contra as quais é inútil rebelar-se. Ela entendeu e me aconselhou a chamar um uber. Achei uma excelente ideia, cliquei no botãozinho do aplicativo e meu celular deu seu irônico último suspiro.
Tinha tudo pra dar certo.
E então lá estava eu.
Sem romance.
Sem celular.
Paralisado e flatulento na beira da avenida, guinchando de dor, escondendo a mochila atrás da perna e torcendo pra não ser assaltado enquanto os exíguos restos da minha dignidade digestigladiavam-se sob a luz do luar.
Eu só queria ir pra casa.
O ponto de ônibus estava a vinte metros, mas eu não conseguia chegar lá. Era ridículo. Eu via passar um ônibus atrás do outro, mas estava preso no meu próprio ponto esperando um peido que me liberasse algum espaço de manobra. Respirei fundo, me concentrei e tentei lembrar de tudo o que havia aprendido naquelas três ou quatro aulas de yoga que frequentei em meados de 2012-2013. Alinhei os chakras ou qualquer coisa assim, engoli o choro e, como se atravessasse um poço de areia movediça flamejante, cheguei lá.
Não tinha lugar no ônibus, o que não era problema, porque a perspectiva de me sentar parecia arriscada demais, não dava pra saber se eu conseguiria me levantar depois. Me acomodei em pé num canto, e o ônibus foi enchendo. O sacolejo do busão funcionou como uma betoneira misturando a minha argamassa. Tinha tudo pra dar certo.
Conforme sentia a mágica acontecer, me caiu uma ficha: o terrível clichê sobre o perigo de se conseguir aquilo se deseja. Súbito, eu estava em uma caixa de metal com as janelas quase todas fechadas, prestes a desencadear um Chernobyl sobre aquelas pobres pessoas inocentes voltando pra casa depois de um dia exaustivo de trabalho. Com a mão trêmula, senti o borbulhar no baixo ventre. Eu era uma bomba-relógio. Oh meu deus, o que foi que eu fiz??
Como se já pudessem de antemão sentir o cheiro da minha culpa, as duas senhorinhas sentadas na minha frente começaram a falar sobre deus. Uma delas tirou uma bibliazinha da bolsa e as duas avózinhas muito fofinhas diziam que deus isso, o padre aquilo, e esses jovens de hoje em dia que estão impossíveis, e você viu na televisão ontem, meniiiiina nem te conto, mas deus é mais, sangue de cristo tem poder e etecétara etecétara. O cara em pé atrás de mim enfiava o cotovelo nas minhas costelas toda vez que mandava mensagem no celular, e aquele vuco-vuco e mexe pra cá, aperta pra lá, e o motor tremendo no chão, e cada lombada uma emoção e ôôôô motorista tá transportando gado, é, cacete? e as tiazinhas falando amém amém amém eu ali, carregando no ventre o rebento de satanás, me sentindo a menina do exorcista, só conseguia pensar que, bicho, se eu peidar em cima dessa carola o que é que jesus vai pensar de mim?
Lembrei de todos os filmes de super-herói em que o mocinho, de posse de um dispositivo termonuclear, pula no rio ou voa pro espaço sideral pra salvar a cidade da explosão. Era aquele o momento pra o qual eu havia me preparado todos esses anos assistindo dragon ball e lendo homem-aranha. Era chegada a hora e vez de Plínio Matraga. Dei sinal e dei no pinote empurrando geral. Sai da frente, eu tenho que salvar a sua vida, porra!
O ônibus parou e, no espaço imensurável do pulinho da escada pra a calçada, aconteceu.
Um arroto: e o universo transbordou de mim.
Mano, eu arrotei querendo chorar. Aquilo não foi simples eructação, não senhor. Era um grito de liberdade! Eu era o simba rugindo na pedra do rei! Eu era a kate winslet de braços abertos na ponta titanic! Eu era britiney careca quebrando um carro com o extintor de incêndio! Eu era livre, leve, dono do meu corpo, praticamente um comercial de absorvente. A cada arroto que urrava, mais eu me sentia uma bailarina fazendo um, dois, pliêêê, um, dois, pirueta, pliêêê, très jolie.
Meu arroto, meu nêmesis, estava agora livre pra percorrer o mundo e espalhar a sua mensagem. Nos despedimos, e eu pude finalmente voltar pra casa sem medo de riscar um fósforo e explodir o prédio.
Terminei minha noite-que-tinha-tudo-pra-dar-certo tomando um chá digestivo feito pela roommate, abraçado com minha cachorra, com quem tenho intimidade suficiente para compartilhar certas sublimações sem constragimento.
Porém, quando despertei essa manhã, uma questão ainda empesteava minha mente:
afinal, quanto pesa um peido?

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