Quando escrevo crônicas em primeira pessoa, fica fácil apertar os botões que fazem uma história ser tridimensional, porque conheço muito bem a backstory do meu personagem e sei — na maior parte do tempo — distinguir o que é real do que não é, evitando atentados contra a verossimilhança. Assim, tenho muito menos coisas pra me preocupar na hora de contar uma história e posso me dedicar aos pequenos detalhes que transformam o banal em literatura.
Escrever contos já é uma outra complicação, principalmente porque aquela história não é sobre você. É preciso criar pessoas independentes, espaços e tempos, sentimentos e ações, diálogos, vozes e vontades diferentes das suas, e ainda colocar tudo isso em uma história com sentido e propósito de um jeito esteticamente interessante. Por vezes você tem que priorizar um aspecto ou outro, fazer escolhas que nunca (N-U-N-C-A) são satisfatórias. Textos longos ou curtos; lirismo ou realismo; ação ou subjetividade; velocidade ou profundidade. Decidir se um personagem deve ou não ter nome, cara, sotaque, uma razão pra existir. Entre as tantas escolhas de forma e conteúdo, a sensação é de que sempre perde-se mais do que se ganha, mesmo que às vezes menos seja mais
Particularidades de gênero textual à parte, acho que o mais difícil é separar o que faz uma boa crônica de um bom conto.
Quando escrevo crônicas, posso lidar com minhas questões pessoais de um jeito aberto. É um espaço livre pra falar diretamente sobre política e amor tanto quanto contar os dilemas de ser um jovem calvo escolhendo xampú no supermercado. Dá pra pular da tragédia pra um humor descarado sem sentir remorso ou recato. Crônica — esse gênero absolutamente brasileiro — é farofada na praia, sociologia de boteco, briga de família no natal, terra de ninguém mesmo, e por isso funciona tão bem pra falar de tudo junto misturado.
É difícil essa libertinagem quando se escreve contos. Isso é possivelmente o que faz com que grande parte dos escritores da minha geração escreva tantas histórias modernas e mornas que falam muito bem sobre absolutamente nada. Outros vão tentar fazer uma literatura “sem amarras”, e geralmente transgridem pelo conservadorismo ou pelo experimentalismo caricatural. E há aqueles (e me incluo aqui) que vão tentar escrever com objetivos políticos bem demarcados — ou com os freios herdados dos textões de facebook, é uma questão de ponto de vista — e isso facilmente recai no panfletário ou no clichê.
Em tempos de literatura líquida, me parece cada vez mais difícil separar esses limites, o que poderia ser uma coisa boa pra quem escreve. Entretanto, também fica cada vez mais difícil fazer essas escolhas, porque se o horizonte não existe, fica difícil saber pra onde olhar.
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