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Nem tudo aqui é ficção. Nem tudo é real. Quem se importa?

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Maquiagem




Diante do espelho, o ar carregado do vapor do banho, maquiou-se como uma boneca francesa. Caprichou no blush das bochechas e abusou do lápis e do rímel, para criar um clima noir. Em seguida, com a tesoura pontiaguda, cortou os cabelos. A mão trêmula deixava a nuca exposta, a franja irregular, um talho na orelha. Olhou-se, sorriu, abriu a lâmina e delicadamente lambeu com o aço afiado a lateral macia do rosto. Sentiu o sangue escorrer, um arrepio gelado tomou-lhe por dentro. Tremeu, mastigou um choro doído e fez o segundo corte, uma ponte entre o canto esquerdo da boca e o maxilar. O último toque foi uma incisão delicada por baixo da pálpebra, que contrastou magnificamente com o azul tirquesa de sua íris lacrimejante. A tesoura,livre no ar, atingiu o chão com o som de um milhão de sinos.


Abriu a torneira, molhou a ponta dos dedos e tornou a fecha-la. Com a palma da mão, espalhou o sangue sobre a face, pescoço e peito. Um choro convulsionado subia-lhe pela garganta, tomando de assalto as pernas, que bambearam, um pouco sob o efeito do álcool, um pouco por causa da dura sensação da realidade suja, e lhe puseram de joelhos no azulejo manchado de gotas vermelhas. Nua por baixo da toalha, sentiu o calor pegajoso do sangue que lhe cobria o corpo.


Recompôs-se. Abriu um vidro de perfume - presente do canalha - e despejou Chanell nº 5 sobre as feridas, que queimaram ao toque do álcool odorizado. O grito foi forte, mas inaudível - explodiu na garganta e desceu de volta ao coração, que batia saudável, apesar da dor que lhe corroia o sentido poético. Com um lenço úmido, retirou o excesso de sangue que lhe escorrera das feridas e coloria demais a pele. Buscava uma palidez sóbria misturandoo sangue e as lágrimas á maquiagem recém feita. Uma pintura forte, porém lenta, um choque altivo, grotesco sublime e limpo que representasse seu esvaziamento sofrido, seu masoquismo cancerígeno. Era agora osso oco, pele pútrea, vácuo venal
Olhou-se no espelho e riu, primeiro um sorriso tímido, depois uma gargalhada quase histérica, mas parou quando se sentiu ridículamente teatral. Deixou o banheiro ensaiando uma valsa solitária, contendo um riso infantil.

No quarto, vestiu seu melhor vestido de festa, tirou a aliança do dedo e guardou numa pequena caixa de papel, junto dos recém-descobertos bilhetes apaixonados da tal estagiária.

Uma última olhada no espelho, Satisfeita, pegou as chaves do carro e partiu para a festa de natal da empresa, onde ele provavelmente já deveria ter agarrado com a maldita secretária adolescente.
Por via das dúvidas, colocou na bolsa a tesoura ainda manchada da dignidade matrimonial. A noite promete ser longa.

13 comentários:

Calebe disse...

Cheguei a seguinte conclusão: você tem problema, nem prozac ajuda mais.


(curti pacas o conto - mas você também tem que foder os personagens mais do que eles já são fodidos por conta própria, né?)


Abraço (também andei escrevendo, mas nada de foder com a vida dos personagens totalmente, como você; depois mostro, firmê? - tem um que é dedicado a você. Ah, escrevi na abstraktus também),

Calebe

Calebe disse...

De repente, não sei por que, achei que você conseguiria ser mais bizarro escrevendo contos de fada do que aqueles russos de que me falou.

Mas deve ser só impressão, não é?


Um grande abraço, meu (aquele churrasco valeu a pena, valeu um bom papo...),


Calebe

Madalena Barranco disse...

Olá Plínio,já lhe disse que seu estilo está entre o terror que a alma não consegue segurar pós desilusões amorosas? Seus contos não andam tão distantes da realidade... Basta observar os transeuntes. Abraços e feliz ano novo, pois não poderia deixar de conhecer seu blog antes que o ano virasse.

Marcelo Fabri disse...

Poxa vida. Que prazer ler esse texto. Quem me indicou seu blog foi a Ana Ziccardi de Lingua Portuguesa. A descrição é ótima, a situação melhor ainda. Adorei!

Danilo Moreira disse...

Nossa, vc escreve com maestria, meio Nelson Rodrigues, um autor que eu adoro.

A história tem um tom de drama, e junto com layout em vermelho, nos faz lembrar, sendo meio pessimista, que o ser humano é um amontoado de sentimentos, carne, sangue, e reações.

Essa combinação costuma ser sublime, mas ao mesmo tempo, aos outros, pode se tornar perigosa.

Abçs!!!

Te convido agora para provar uma pequena dose de nostalgia. Confira!!!

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http://emlinhas.blogspot.com/

EM LINHAS...
Quando as palavras se tornam o nosso mais precioso divã.

Novo texto: Sessão Nostalgia
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O piu da Coruja disse...

É muito doloroso olhar no espelho de nós mesmos. Há momentos em que precisamos adentrar a dimensão da dor e da solidão. Quando esse momento maldito chega todas as nossas máscaras caem por terra. A garganta fecha como se ali estivesse um edema de glote. A alma queima. Queima tanto que o sorriso que brota a face não passa esboço de esperança triste. Tentativa desgraçada de encontrar um novo sentido pra vida. Daí, a vida a morte e a sensualidade caminham lado a lado na busca insana de encontrar uma resposta para o mistério. Mistério que guarda em seus intestinos o segredo para a culminância da vida.

A dor é boa ao passo que se torna reveladora ao tempo que se confronta com o mistério.

Parabéns, você escarra na fase dos outros a necessidade de sentir o próprio cheiro e olhar e própria face.

Um grande abraço do Wagner

Letícia Castro disse...

Rapaz! O Chico Buarque dourava a pílula, ficava num nhém-nhém-nhém irritante quando retratava o universo feminino. Vc foi na jugular (quase, né?)! Adorei!
Eu fiquei pensando no que faria... Com certeza, partia pra cima dos dois com a tesoura, mas antes dava o troco... São tantas as possibilidades!!!
Os teus livros a gente compra onde? ; )

Abraços!

Letícia.

LETÍCIA CASTRO disse...

Plínio, tem um selo bem legal para vc lá no Babel.com.

Dá uma passadinha lá pra dar uma olhada.

Abraço!

Letícia.

San disse...

a la Baudelaire!

Guerras Secretas disse...

Wow, meu tipo de garota, vaidosa, auto-destrutiva e psicótica, hauahuahuahau

Cara, segunda vez que apareço aqui, e novamente senti um arrepio na nuca quando terminei o texto, você deselvolve seus cenários muito bem, vou te adicionar nos meus favoritos pra não perder teu endereço jamais!


Quanto ao seu coment no meu post, eu já tinha pensado a respeito de desenvolver melhor o mundo dominado pelas baratas e possívelmente eu acabe escrevendo alguma coisa a respeito, alguns dos meus contos tem continuação, o problema é inspiração mesmo=/

Siegrfried disse...

Em uma única e grosseira palavra:
"Excelente!"

Espero mais!
Obrigado pela ótima colocação que fez em meu Post, Suicídio.
Agora eu atualizei o blog e coloquei uma espécie de continuação nele.
Depois você dá uma olhada.
Gracias!

Vivi Peron disse...

Plínio, primeiramente quero registrar minha admiração pelo seu estilo de escrever e também pela sua inteligência...Uau que história!!!Como dizem de perto ninguém é normal, e as pessoas cometem insanidades por "coisas do coração", como essa sua personagem, gostei.

Bjs!!!

danisiinha disse...

de tão intenso sentir arder em minhas feridas o chanell....
otima a maenira como tuescreves esses contos....
trnsporto-me...

www.daniilopes.blogspot.com