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Nem tudo aqui é ficção. Nem tudo é real. Quem se importa?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Presa




Na caça de alma-gêmea
Ou só fêmea
Semeia apolo um solo
Na guitarra
Amarra nota a nota
E arrota
Um versinho qualquer
Esmola mulher

Melhor molhar de éter
O meu ar
Ou aço vai no baço
Samurai
Que esse enrola-enrola
Assim carola
Assim Hai-kai
Não me vai
Descolar aquela dança
Ou aliança
Tanto faz

Se bota o pé com bota
Ou a garra
Rasgando o meu pesçoço
Até o osso
Ou choro de menina
Que Sibila
Assina minha sina
Assassina

Se eu chegar no gozo
No altar ou na esquina
Santinha ou messalina
Tanto faz

domingo, 4 de julho de 2010

A arte de ser vão e livre

1.
Avenida P cheira pó. Asflato liso, quente, acelera o pulso. Avenida pede passo corrido, cafeína, inala fumaça, fauna de gravata, bicho-grilo vendendo brinco - “olha a arte aê, irmão”, “não tenho tempo”.

Avenida P nunca tem tempo.

Sobrepor sobretudos e sandálias, compromissos e compras, gente e gente e gente em massa corrente. Entre farol e buzina, relógios digitais piscam tempo, temperatura e anunciam: Nike – Just do it! Faça, corra, leia o jornal, engula o café, pendure o crachá, equilibre salto alto, amarre a gravata, não olhe pra trás, escolha um prédio, escolha um ônibus, mantenha a direita livre para circulação, atenção, passageiros, os assentos de cor cinza são preferenciais, respeite esse direito!

Just do it!

2.
Mácula na ordem. Paralelepípedos param a pressa. De-sa-ce-le-raaaaan-doo. Na fresta da pedra espreguiça o mato tímido, verde no cinza. Suspenso, concreto se faz nuvem. Vão e livre, espaço cavando tempo lento na urbe agorafóbica.
Sentar na amurada e ver a vala da nove de julho. Na ponta oposta da artéria automobilística, cessam motores e soa floresta. Sentar na amurada e observar a mata-ilha, com seu bandeirante de mármore austero que não consegue atravessar a rua. Sentar na amurada e observar o caos. Sentar na amurada é ser cigarra cantando sossego cercado de formigas. Just do it, ants! Sentar e respirar.

Just breathe...


...
No fluxo urbano contínuo, templo de ócio e arte. Não vende ações, não pilota calculadoras, não atualiza softwares, não pavimenta rodovias, não aliena, não buzina, não ordena. Sonhar não põe a mesa (nem precisa), mas alimenta. Apenas contemplar o delírio emoldurado numa parede.
Sentar na amurada e contemplar, emoldurada nas colunas vermelhas, as formigas, os relógios, os carros escorrerendo contínuos. Da boca pro rabo e de volta pra boca, regurgita Oruborus tecnocrata. Na proteção das pernas abertas, sentar na amurada e respirar, vão e livre.


sábado, 26 de junho de 2010

Réquiem para um romance de barro

Texto antigo pra um caso efêmero
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Tentei segurar-lhe a mão, mas ela recuou incontinenti. Apenas abanava a cabeça numa negação tímida, indicando que minha pele lhe causaria dor, que meu toque lhe causaria repulsa. A questão era se sentiria repulsa por mim ou por sucumbir tola ao toque dissimulado. O frio lhe incomodava. Poderia ter-lhe abraçado, mas preferi acender um cigarro.

Era uma praça fria, iluminada parcamente por uma lâmpada amarelo-avermelhada de mercúrio. Podia ver, por sobre a amurada baixa, a torre da Avenida Paulista, e me esforcei por um segundo pra não sorrir para a beleza da minha cidade, ou não fazer um comentário sobre a estrela solitária que despontava corajosamente entre o mar lamacento que é o céu paulistano. Admirei-me da cena, mas senti que faltava algo. Então eu a vi, chorando, os olhos verdes mesclando-se à vermelhidão dos canais lacrimais expelindo pedaços de ilusão partida – era vidro e se quebrou, era caco e se cortou – sangra, meu amor.

Sob os auspícios severos da minha mal disfarçada indiferença, soluçando impotente, mantinha as mãos apertadas uma contra a outra como pra bombear o sangue que já não queria passar por um coração partido, o desespero infantil em sintonia com a decadência da cidade, a indignação num dueto com a frigidez do cimento de que era feito o banco rachado em que nos sentávamos, o apelo no olhar para o alto, preso num céu sujo de uma estrela única e semi-apagada, se afogando na fumaça como você se afogava na minha indiferença, no meu tédio, no meu asco, o perfume caro que você usava se misturando ao fedor dos muitos mendigos que deveriam dormir ali todas as noites, o soluço, o soluço, o soluço... Ah, o solo de uma lágrima que lhe escorreu o queixo e morreu no peito, onde morrera tanta coisa naquela noite. Violinos violentaram sutilmente nosso silêncio, e eu sorri em Si bemol. Sim, ah, sim...

Ali, finalmente, você foi música e poesia e, pela primeira vez, me senti realmente apaixonado. Nosso romance, qual canto de cisne, na morte se fez arte.

Quase te beijei, só pra prolongar a tua inédita sinceridade, a nova delicadeza da mulher que você quase foi um dia. Quase me apiedei, e então te daria um tapa para lhe devolver a razão, a dignidade, o chão, mas lembrei-me do desprezo que sentia pelo teu sorriso débil de gozo, da crença na minha fidelidade, da tua credulidade de menina apaixonada, e então me mantive no altar que te prendia na minha lama arrogante.

Fraquejei ao não lhe cuspir às faces, e te permiti a sublime tortura de achar que eu era bom demais pra sua quase ingênua estupidez.

Quase triste, amor. Almost blue.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sepultar

Acendi um cigarro e caminhei pelo chão quebrado. Ainda não tinha chegado ninguém, meu irmão e meu pai tinham ido almoçar. As tumbas portentosas disputam um campeonato inutil de tristeza. Anjos de mármore, bustos de metal, frases em latim. O festival de lamentações falsas extrapola o ridículo. Maternidades comemoram o início da vida com salas de tons pastéis e pijamas azuis. Cemitérios lembram o fim com pequenos edifícios de luxo. Ridícula tentativa de compensação do fim.

Os parentes se aglomeravam com caras tristes.
- Você viu como ela está bonita?
- Não. Bonita estava ontem, respirando. Você viu?
Não viu, é claro.

Rezar
- Vamos dar as mãos e nos despedir.
- Eu me despedi quando ela podia me ouvir.

Carregar o caixão.
- Você tem que segurar a alça.
- Ontem eu segurei a mão. Ainda era quente e macia.

A solidariedade quando não se é mais útil.
- Qualquer coisa que você precisar, me liga. Aparece lá em casa.
Eu não tenho o seu telefone. Eu não tenho o seu endereço.
Tirei a gravata e arregacei as mangas. Sorri todo o tempo, e no fim do dia choveu.
Saí pra uma cerveja e joguei sinuca. Caminhei pelo centro de madrugada e dormi num motel barato com a televisão quebrada, cama forrada de plástico verde e alguns conhaques na cabeça.

No dia seguinte não vi os dias seguintes. Só o café, os cigarros e o tempo que ia passar como sempre passou.

Cemitérios são como os vivos mantém vivos seus mortos. O sepultamento acontece dentro de nós.

E continuar a caminhar.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Morrer dormindo


Morrer dormindo. O ultimo presente que posso dar à ela.

Existem muitas formas de câncer. Acredito que ela passou por todos. Todas as células em desordem, o corpo sendo corroído por saudades, pela perda, pela sensação de que tudo foi em vão.

Faz dez anos que o primeiro tumor surgiu. O corpo desfigurado, sentia-se menos mulher. Meu pai fotografava modelos, meninas jovens de corpos bem cuidados, saudáveis, risonhas, e ela assistia a tudo sem um seio, cabelos caindo, remédios que engordam, o corpo cansado demais pra permitir que a cama fosse mais do que um leito.

Mudamo-nos para o interior. Assistiu o primogênito abandonar a casa por uma menina que também morria. Assistiu o marido sair por uma noite, depois por três, depois por semanas. Ao final de alguns anos ele simplesmente não voltou.

Voltou para a cidade grande. O bucolismo encantador do nascer do sol sobre o lago não condizia com o estado de alma dos olhos que observavam pela janela o mato crescer do lado de fora da casa que construiu pra ser um ninho. Cada tijolo, cada flor plantada, tornou-se uma ferida, uma lembrança da família que desaparecia.

Foram quase três anos num apartamento pequeno na periferia da cidade acompanhando as matérias que saíam no jornal assinadas pelo marido. Uma assinatura, uma fotografia esparsa e um telefonema ocasional eram o que havia sobrado dos vinte e três anos de casamento. Abandonou emprego, faculdade, amigos, e no fim tudo se desfez como se desfazia seu corpo, sustentado por comprimidos e radiação.

Foi uma mulher de todas as fés. Lia cartas e rezava terços. Conversava com ganeshas e messias de todos os mundos comprados em lojas de esquina. Cozinhava, como antigamente, almoços para dez pessoas, não conseguindo aceitar que na casa passasem agora apenas ocasionais duas ou três bocas apressadas.

O sono ficou difícil. A dor chamava de madrugada, e eu ouvia, do meu quarto, quando ela caminhava pela sala e ficava horas sentada no sofá em silêncio. O ar ficava cada vez mais denso e pesado pra os pulmões frágeis, entrava sem ritmo, às vezes escasso e as vezes difícil. Uma pipa perdida na tempestade.

Na última quarta-feira foi seu aniversário de 52 anos, deitada numa cama de hospital. Os parentes vem visitar, seguram um sorriso, dizem que tudo vai ficar bem. Ela diz acreditar. Como boa esposa, boa filha, boa mãe, aprendeu a arte de simular uma condecendência confortante.

Quando todos se foram só sobraram no quarto ela, eu e pedaços de bolo de aniversário na lata de lixo com símbolo de material infectante. Eu me sentei na beira da cama, beijei sua mão e ela me disse, sem precisar de nenhuma palavra, que sabia que tudo ia acabar bem.

Hoje, sentado num sofá de couro de um corredor ascéptico, pedi à médica que coloque minha mãe em coma. Os exames nos dão mais uma semana, dez dias talvez, pra que os pulmões parem definitivamente de funcionar e ela se afogue. A doutora concordou em colocá-la pra dormir dentro de 72h. Morfina feita Morpheus.

Minha mãe vai partir dormindo. É o último presente que posso dar à mulher que me ensinou a sonhar.


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Luz, Gelo e Óleo de Cozinha num Quarto de Nabokov

Gelo e óleo de cozinha. Eram imprescindíveis, á despeito de todo o equipamento tecnológico, de todas as luzes e flashs e photoshop, o gelo e o óleo de cozinha não podiam ficar de fora.

Quando eu era criança, todos os garotos do condomínio se reuniam na garagem pra ver revistas de sacanagem. Olhávamos, repetíamos palavrões que ouvíamos de nossos pais, e no final concordávamos que a profissão ideal era fotógrafo de mulher pelada. E agora lá estava eu, com uma câmera, um quarto de hotel, uma menina sobre a cama, gelo e óleo de cozinha, e me perguntava, onde estava aquele glamour, todo aquele tesão de pré-adolescente?

Não é que a menina não fosse atraente. Era lindíssima.O corpo escultural, devidamente esculpido á golpes de bisturi sobre uma mesa de inox, pago em trinta e duas vezes no cartão de crédito; os olhos azuis de vidro, umedecidos com soro fisiológico; os lábios injetados; a cabeleira oxigenadamente loira; os cílios postiços... um corpo de mentira, como os orgasmos de mentira, as carícias de mentira, as caras e bocas de mentira de que vivia a menina. Mentiras de aluguel para homens que mentiam para as esposas em casa, que mentiam pra si mesmos, com suas mentirosas felicidades feitas de carros luxuosos, ternos italianos, clubes de pôker, famílias de plástico e meninas como aquela. O sucesso nojento de um mundo canibal. Eu era pago pra produzir belas mentiras, com luz, gelo e óleo de cozinha.

Antes eu fotografava peças de catálogos de autopeças, canetas e outras babaquices quaisquer. De vez em quando pintavam alguns casamentos e aniversários. Foi em um casamento que eu conheci o Álvaro, um gay gordo com anel dourado no mindinho. Conversamos sobre o ridículo ritual pré-nupcial católico, ele pediu meu cartão e disse que tinha um serviço pra mim. Ele estava abrindo uma agência de acompanhantes para executivos, e queria que eu fotografasse as meninas. Dinheiro grande pra um falido como eu.

O processo era complexo. Álvaro me ligava quando uma menina nova entrava pra o casting, me passava os dados dela e marcava um encontro em um café. Passávamos a tarde e a noite conversando e bebendo, pra que ela se sentisse á vontade comigo, como se fosse um amigo ao invés um açougueiro expondo um pedaço de vitela num gancho. Eram todas universitárias poliglotas que precisavam bancar os estudos, as roupas de grife, as baladas e a cocaína, pra não ficarem deslocadas entre a filhas de desembargadores e juízes da faculdade. Falávamos sobre arte, sobre futilidades e sobre a vida delas. Geralmente a noite acabava com a menina chorando, bêbada, confessando as dificuldades da vida de prostituta e o orgulho dos pais, na cidadezinha de interior, por ter uma filha que estudava e trabalhava tanto. Ou, ás vezes, com a imbecil exaltando uma filosofia epicurísta transfigurada em frases de auto-ajuda feminista pra disfarçar com indiferença o njo que sentia de si mesma e a vergonha de não conseguir ser mais do que uma boceta bem paga. Tornei-me mais psicólogo do que fotógrafo.

A sessão acontecia em duas fases. Na primeira eu fotografava books inocentes. Álvaro montou uma agência de modelos de fachada, que servia como álibi para os pais das meninas não desconfiarem de nada. Assim, periodicamente elas podiam enviar pra casa fotos de supostas campanhas para revistas e lojas, e justificavam o dinheiro que certamente não ganhariam como garçonetes de alguma espelunca. Na segunda fase, fazíamos as fotos do site.

Álvaro alugava sempre duas suítes em lados opostos do hotel, de modo que as janelas apontassem sempre na direção do sol. Eu dispensava maquiadores, preferia que elas trouxessem uma amiga que lhes ajudasse, pra ficarem mais á vontade. Nunca ficávamos sozinhos na sessão. Elas ficavam nervosas. É engraçado como entravam facilmente nas personagens com os clientes, mas eram apenas meninas comigo.

Eu dispensava também os grandes equipamentos de iluminação. Tripés e spots de luz fazem o ambiente parecer uma sala de cirurgia. Funcionam pra revistas pornográficas e books de moda, mas executivos queriam meninas, como as amigas de suas filhas pelas quais se masturbavam depois de deixar as crianças no colégio. O equipamento consistia basicamente em uma câmera, um aparelho de som, tecidos e uma ou duas garrafas da bebida favorita delas.

Começávamos com algumas fotos sem importância, só pra descontrair. As primeiras cinqüenta fotos eram lixo. Então eu seguia servindo os copos. Usava copos escuros, de modo que podia encher o da menina de bebida e o meu com metade de água. Ela bebia, dançava, ria muito, fumava. Então eu lhes passava o óleo de cozinha no corpo, pra dar textura. Elas ficavam soltas, mas a pele precisava ficar arrepiada, os bicos dos seios precisavam ficar eriçados, e aí entrava o gelo nos mamilos. Então, depois de muita bebida, um pouo de óleo de cozinha e gelo, voilá! Meu trabalho estava terminado. Então eu chamava um taxi pra elas e voltava á pé.

Depois de cada ensaio eu ia sempre pra o mesmo bar, enchia a cara e passava a noite pensando no que seria daquelas meninas. Elas ganhariam o dinheiro dos porcos que forjavam congressos em São Paulo pra se divertir, gastariam tudo da maneira mais supérflua possível, e se achariam vagabundas toda vez que a ressaca batesse de manhã. Então, em quatro ou cinco anos estariam formadas. Médicas, advogadas, publicitárias, dentistas. Casariam com os filhos dos ricaços asquerosos que tinham se esfregado nos seus corpos jovens, teriam filhas e passariam madrugadas preocupadas enquanto essas filhas estariam em festas. Dariam conselhos. Freqüentariam a igreja e as reuniões da Associação dos Amigos do Bairro, e sofreriam de ciúmes quando seus maridos viajassem para os congressos fora da cidade, pra se divertir com as filhas universitárias de suas antigas colegas. Que pesadelos teriam essas meninas nos próximos vinte anos? Como seria viver com o medo do passado vir a tona, em um site perdido na web, em um catálogo perdido em uma gaveta de um velho executivo? Viveriam elas com esse medo, pensariam nisso ou eu superestimava o senso de humanidade e a inocência daquelas meninas? Meu lado altruísta esperava que sim. Meu lado egoísta esperava que não. Sempre preferi ser egoísta. Um brinde à Stirner, Nietzsche e demais ofídicos de pena e tinta!

Durante os cinco meses em qeu fotografei para o Álvaro, posaram cinquenta e oito garotas. Nunca me deitei com nenhuma delas. Elas eram só meninas. Eu era a prostituta ali.

Durmam bem, meninas. Tenham bons sonhos.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Noctâmbulos





Pesam as pálpebras, cortinas cobrem retinas. Observo a Lua, leve no céu. Leva-me leve a Lua aos céus baixos em mim, fobias, fantasias, fantasmas dançando nus o tango do delírio.


Na janela jaz a rua em paz, sem pés que passem apressados, carros rodando sem rostos atrás dos vidros escuros, obscuros robôs correndo aos matadouros pelo pão nosso de cada dia que o diabo amassa, cospe e fode. São massa, insana massa. Só, a avenida semeia lâmpadas de mercúrio, brotam vermelhos céus – de fora e de dentro. Deep red redemption when the city sleeps.

Pesam os relógios, quartzo marca-passo musicado, desesperada sinfonia monossilábica escorre a pele, os cabelos, a força, os cânceres, as saudades.

TIC, TIC, TIC, TIC, TIC, TIC. TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM

Cardíacos acordes acordam pensamentos mortos. Anjos tortos, demônios narcolépticos, noturnos, alma fotofóbica com óculos de insônia. O resto é casca, zumbi de barba feita e sapatos polidos. Sob o sol, paletó, cartão de ponto, jornal, café, cigarros, bom dia, boa tarde, bom garoto, pega um biscoito, um graveto, um holerite, uma esposa, uma televisão.

A insônia ri no espelho. Do espelho. O rosto atrás do rosto, da máscara, ri o sorriso nicotinado do sorriso colgate. Olheiras fundas sorriem sinceros para a Lua leve que me leva, enfim, pra longe de mim. Sorrir antes que o dia nasça e tombe novamente na tumba.

TUM, TUM, TUM, TUM, TUM, TUM...