Naquela manhã decidi não trabalhar. Tomei um banho demorado, sem me preocupar com a conta de luz no fim do mês. Ignorei a toalha na porta do box, sai molhado, espalhando água no piso de madeira do apartamento. Sentei-me nu na cama, olhando-me no espelho. Os anos passaram. Há quanto tempo não me via nu? Já não conhecia meu corpo, eram-me estranhas as cicatrizes no braço direito, os músculos parcos, os pelos que despontavam grisalhos no peito, o dragão nas costas. Engordei. As pernas haviam perdido a força dos velhos tempos, eram agora escravas do carro. Nunca comprei a moto que sonhei na juventude. O espelho era o símbolo dos sonhos que não se cumpriram.Nu, requentei o café do dia anterior e peguei o jornal na porta. Na capa havia minha última matéria, o horrível caso da mulher que enforcou o filho e se matou em seguida, após o último capítulo da novela das oito, em que morreu o galã por quem ela era apaixonada. A matéria é destaque, logo abaixo do resultado da copa sul-americana de futebol. Foi uma matéria trabalhosa, precisei cobrar um favor do delegado Alceu para descobrir o endereço do marido da moça. Viajei até sua cidadezinha porca, onde ele era caseiro de um sítio. Precisei pagar muita cachaça pra conseguir fazer o infeliz chorar e dizer que amava a mulher, que ela era uma boa pessoa, e que sentia saudades do filho, que não via há quatro anos porque era um bêbado que espancava a família, assim como espancava a nova mulher. Redigi a maldita entrevista em meia hora, acrescentando todo o dramalhão que paga o meu salário e faz os cães canibais se embebedarem de sangue todos os dias na fila da lotação.
Deixei sobre a mesa o café intocado e o jornal. Náusea. Talvez precisasse de outro banho. Ao invés disso, servi-me de uma dose de conhaque – meu deus, são nove da manhã! – e sentei-me, nu e molhado, em uma cadeira de vime na sala.
Guardo, embaixo da cama, caixas de recordações. Costumo pegá-las todos os anos no natal, mas nunca as abro, só ouço os anos reumáticos se movendo dentro delas. Guardo lá cartas de amor que recebi e que escrevi, mas nunca enviei. Guardo velhas fotografias, ingressos de shows, a embalagem do meu primeiro maço de cigarros, um recorte da primeira matéria que escrevi, os contos que nunca publiquei. Uma agenda de telefones pra os quais sempre quis ligar nos aniversários, mas nunca liguei. Uma mecha de cabelos loiros. Um soneto de Vinícius de Moraes em um bilhete de despedida. Um espelho quebrado. Uma gaita em C. Um zippo.
Em cima do armário há um violão de braço quebrado que nunca mandei consertar, mas não tive coragem de jogar fora. Nele há tardes ociosas, há noites de céu e fogueira, há belos pesadelos. Acorda, não há cordas que toquem sonhos.
Possuo uma velha vitrola, uma pilha de discos que abandonei pela praticidade dos mp3, ou pela perda da paixão pela música. Desencavo um velho disco de Billie Holyday. A faixa três é As Time Goes By. Parece-me adequada.
Na cozinha, guardo as tintas das idas telas que deixei inacabadas. Entre carvões e pincéis, uma lata grande de removedor.
Espalho em círculos o removedor pelo piso, cadeiras e cortinas da sala, acompanhando a voz anasaladamente apaixonante da musa Billie. Ah, Billie, como me você pode me abandonar por todos esses anos?
Da caixa de recordações, recolho o Zippo, troco o pavio e reponho-lhe o fluido. Ateio fogo em uma caixa de papelão com jornais velhos. Leio a primeira linha de cada uma das antigas cartas antes de atirá-las ao fogo e observo, enquanto as cortinas dançam tango com as labaredas e o piso estala sob o calor do fogo. Sinto a fumaça invadir meus olhos,
mas não licrimejo.Sorrio o sorriso dos dentes estragados pelos anos de fumo e displicência.
Quanto tempo levará a fumaça pra me encobrir os sentidos?
11 comentários:
Infelizmente (ou felizmente, vai depender do caso) as labaredas externas não queimam o que está guardado dentro de cada um de nós. Já a fumaça, essa é sempre bem vinda qdo é necessário entorpecer.
Abraço!!!
:)
Pode demorar alguns minutos para encobrir os sentidos, mas nunca encobrirá o que há por dentro, o que foi conquistado ao longo dos anos. Assim como nunca calará Billie Holyday. Billie vai calar-se apenas nesse disco.
legal essa imagem...
(foi um comentário imbecil, eu sei, aliás, não deveria comentar nada pq, sinceramente, este texto não me convenceu)
Uma ex-namorada maluca já queimou a caixa desse tipo que eu tinha... E uma outra me fez o favor de queimar meu HD também, por achar que toda poesia necessariamente procura um ouvido específico...
Anyway, os caras que têm seus caralhos decaptados (com o perdão do trocadilho) no filme berram um "fuck" bem convincente... já que a tradução é sempre "caralho", acho que você captou o negócio xD
Falando no filme, vieram ralhar comigo essa semana por ter te apresentado essa infernalidade! Huahuahuahua!
Em locadoras é pouco provável que você ache... Use o eMule.
Na verdade, acho que a fumaça já havia
engolido todos os sentidos há tempos.
A começar pelos sonhos de juventude não
realizados, que foram apenas marcando-o
e agredindo-o ao longos dos anos, até se
tornar um caco.
Pena tu não ter mencionado cinzas...
As fênix, ah, as fênix...
que A Deusa me proteja e me livre de esquecer de fazer cada dia valer a pena e de dar o melhor de mim!
linda e triste cronica...
http://prixhoje.blogspot.com/
UAHEUIHAEUIAHEUIAHIE!!
Agradeça a qualquer entidade cósmica aleatória na qual você acredite por ela não ter conhecido Teeth =p
Acabei de baixar o Jack Frost... minha mulher maluca pediu essa porra... comecei a comentar da lista de filmes ubertrash que estava elaborando e estava prestes a dividir com você, quando fui interpelado pela tua amiga. Acho que ambos estamos em situações peculiares. Mulheres loucas. Humpf.
Btw, o banner anterior estava mais interessante.
[]'s
Pode encobrir os sentidos mas nao as ideias...
NOSSA MUITO PHODA O TEXTO
Gostei mesmo...
Abraços
Cisco
http://borarir.blogspot.com/
Exclente! Me indetifiquei com algumas passagens do texto
Voltarei aqui mais vezes.
Primeiro...
"Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo"
e logo depois...
"Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas"
achei bonito e triste ao mesmo tempo...o resultado convenceu.
=)
ta muito bom, meu !!!!....virei teu fã....vc é acido como o Mainardi...pesado como o João Cabral de Melo neto...sarcástico como Dante...e satírico como Maquiavel !!!!...parabens !!!!
João Eduardo
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