Vinha eu pela rua e, no sentido contrário, uma senhorinha de bengala, crocs e meias de segurar varises passeando com um cachorro sem coleira. Ela olhou pra mim, eu acenei dando boa noite e o vira-lata desembestou irado pra cima de mim. Dei aquele moonwalk saltitante de “Eita, mano!” pela tangente, o cachorro se deu por satisfeito e seguiu pra o poste da esquina. Então, a senhorinha me vira e:
– Mas é um valente mesmo, hein?
– Pois é, atrevido ele, não?
– Ele não, seu idiota! Você! O cachorro deu um latidinho e você já saiu correndo! É um cagão mesmo!
– Mas hein? O que é que… como assim… a senhora… você queria que eu tivesse chutado seu cachorro?
– Covarde! Um latidinho e já saiu correndo todo ui ui ui…
– ahn… a senhora é… muito mal educada?…
– Cagão inútil de merda!
– Pois é, atrevido ele, não?
– Ele não, seu idiota! Você! O cachorro deu um latidinho e você já saiu correndo! É um cagão mesmo!
– Mas hein? O que é que… como assim… a senhora… você queria que eu tivesse chutado seu cachorro?
– Covarde! Um latidinho e já saiu correndo todo ui ui ui…
– ahn… a senhora é… muito mal educada?…
– Cagão inútil de merda!
Travei, confuso e gago no meio da rua, tentando processar o fato de que uma heptagenária de pijama me xingava enquanto balançava hipnoticamente no ar todas as pelancas do braço, como se fosse um boneco de posto de gasolina com síndrome de tourette. Foi então que, do outro lado da rua, um catador de papelão defensor dos fracos e oprimidos gritou:
– Cadê a coleira, minha senhora? Lei municipal, seu cachorro não pode andar solto não!
– Cala boca, idiota, não é problema seu! Esse aqui é um covarde! É um cagão inútil!
– A senhora é que devia tá numa focinheira, sua velha louca! – gritava o catador justiceiro – É lei municipal!
– Cala a boca! São dois merdinhas!
– Lei municipal! Velha louca! Lei municipal! Focinheira! É lei! É lei! Leeeeeei!
– Um latidinho e saiu correndo! Idiota de merda!
– Cala boca, idiota, não é problema seu! Esse aqui é um covarde! É um cagão inútil!
– A senhora é que devia tá numa focinheira, sua velha louca! – gritava o catador justiceiro – É lei municipal!
– Cala a boca! São dois merdinhas!
– Lei municipal! Velha louca! Lei municipal! Focinheira! É lei! É lei! Leeeeeei!
– Um latidinho e saiu correndo! Idiota de merda!
E a velha foi embora, pelanqueando ameaçadoramente o braço pra cima e gritando, já não sei se pra mim ou pra o cachorro que, provavelmente constrangido pelo comportamento da sua humana, já estava agora quase fora de vista. O meu cavaleiro de carroça branca seguiu pra o outro lado, xingando a velha e, possivelmente, achando que eu devia ser mesmo um cagão inútil, plantado perplexo no meio da rua, esperando o Sérgio Malandro pular de trás do poste a qualquer minuto gritando “glu glu glu, pegadinha do malandro, seu cagão otário!”.
Cara, que dó que eu tô daquele cachorro...
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