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Nem tudo aqui é ficção. Nem tudo é real. Quem se importa?

sábado, 30 de janeiro de 2010

Morrer dormindo


Morrer dormindo. O ultimo presente que posso dar à ela.

Existem muitas formas de câncer. Acredito que ela passou por todos. Todas as células em desordem, o corpo sendo corroído por saudades, pela perda, pela sensação de que tudo foi em vão.

Faz dez anos que o primeiro tumor surgiu. O corpo desfigurado, sentia-se menos mulher. Meu pai fotografava modelos, meninas jovens de corpos bem cuidados, saudáveis, risonhas, e ela assistia a tudo sem um seio, cabelos caindo, remédios que engordam, o corpo cansado demais pra permitir que a cama fosse mais do que um leito.

Mudamo-nos para o interior. Assistiu o primogênito abandonar a casa por uma menina que também morria. Assistiu o marido sair por uma noite, depois por três, depois por semanas. Ao final de alguns anos ele simplesmente não voltou.

Voltou para a cidade grande. O bucolismo encantador do nascer do sol sobre o lago não condizia com o estado de alma dos olhos que observavam pela janela o mato crescer do lado de fora da casa que construiu pra ser um ninho. Cada tijolo, cada flor plantada, tornou-se uma ferida, uma lembrança da família que desaparecia.

Foram quase três anos num apartamento pequeno na periferia da cidade acompanhando as matérias que saíam no jornal assinadas pelo marido. Uma assinatura, uma fotografia esparsa e um telefonema ocasional eram o que havia sobrado dos vinte e três anos de casamento. Abandonou emprego, faculdade, amigos, e no fim tudo se desfez como se desfazia seu corpo, sustentado por comprimidos e radiação.

Foi uma mulher de todas as fés. Lia cartas e rezava terços. Conversava com ganeshas e messias de todos os mundos comprados em lojas de esquina. Cozinhava, como antigamente, almoços para dez pessoas, não conseguindo aceitar que na casa passasem agora apenas ocasionais duas ou três bocas apressadas.

O sono ficou difícil. A dor chamava de madrugada, e eu ouvia, do meu quarto, quando ela caminhava pela sala e ficava horas sentada no sofá em silêncio. O ar ficava cada vez mais denso e pesado pra os pulmões frágeis, entrava sem ritmo, às vezes escasso e as vezes difícil. Uma pipa perdida na tempestade.

Na última quarta-feira foi seu aniversário de 52 anos, deitada numa cama de hospital. Os parentes vem visitar, seguram um sorriso, dizem que tudo vai ficar bem. Ela diz acreditar. Como boa esposa, boa filha, boa mãe, aprendeu a arte de simular uma condecendência confortante.

Quando todos se foram só sobraram no quarto ela, eu e pedaços de bolo de aniversário na lata de lixo com símbolo de material infectante. Eu me sentei na beira da cama, beijei sua mão e ela me disse, sem precisar de nenhuma palavra, que sabia que tudo ia acabar bem.

Hoje, sentado num sofá de couro de um corredor ascéptico, pedi à médica que coloque minha mãe em coma. Os exames nos dão mais uma semana, dez dias talvez, pra que os pulmões parem definitivamente de funcionar e ela se afogue. A doutora concordou em colocá-la pra dormir dentro de 72h. Morfina feita Morpheus.

Minha mãe vai partir dormindo. É o último presente que posso dar à mulher que me ensinou a sonhar.


5 comentários:

Isis Filcovich disse...

"não condizia com o estado de alma dos olhos que observavam pela janela"
dos dela para os seus e dos seus para os meus
as janelas são aqueles olhos que longe tentam e mal estão aqui,
se foram por nao se condizerem
dividida batalha do que está lá além das janelas,dos olhos,do além e do que há muito tanto mais por haver
além de teus olhos e dos meus
existência dos navegados dos olhos nas janelas.o além que nossos olhos só pressentem.olhos cansados de um por do sol tempestadade que depois é só azul e amarelo.

meus corações para os seus

Anônimo disse...

Um lixo seu texto, por isso vc foi espirrado de todos os círculos. Vc anda se achando muito foda pra quem nem tem tamanho, nem grana, nem porra nenhuma. Ninguém liga pra nada, nem pra ela, nem pra vc. Vc tbm não liga pra ninguém ou pessoa alguma, por isso eu digo: vc e a sociedade estão empatados, nem adianta chorar.

Zuni disse...

Caro anônimo:

Gostaria muito de dizer que eu tenho alguma vaga idéia de quem seja você, mas seria mentira.Sei de muita gente que não gosta de mim, e na maioria dos casos não sei os motivos. Talvez eu seja ingênuo, ou me "ache muito foda" como você diz. Não sei, tudo é possível, afinal, e talvez você tenha realmente alguma razão. Escrever em um blog é, em grandes partes, se achar muito foda, por mais que não consigamos reconhecer isso. É achar que o que sentimos ou pensamos possa ser digno de nota para que outras pessoas parem um minuto de prestar atenção em suas vidas e reparem nas nossas. Arrogância disfarçada. Não posso te tirar a razão.

Só gostaria de apontar dois pontos importantes:
1-Não culpo a sociedade por nada, e nem pretendo marcar pontos com ela. 2-Chorar nunca adiantou nada para os problemas práticos, mas isso não é importante. Chorar é simplesmente chorar, como rir é simplesmente rir, e é nas coisas aparentemente desimportantes que a vida se torna algo além de um ciclo biológico.

Talvez eu tenha sido "espirrado" de algum círculo (desculpe, a minha arrogância não me permite perceber isso), e talvez a minha postura me faça não ter o sucesso pessoal e profissional que me permita "não ter grana nem porra nenhuma", mas, já diziam os quatro de liverpool, "I don't care much for money cause money can't buy me love" (talvez pudesse comprar o seu, quem sabe?).

Não sei realmente se te conheço, e tenho certeza absoluta de que, se for o caso, então decididamente nos conhecemos superficialmente. Não sei se te ofendi ou fiz algum mal algum dia. Sei que já recebi alguns (poucos, feliz ou infelizmente) recados como o seu, e reagi de maneiras mais agressivas. O caso é que hoje já não me importa. Já não me importa se pessoas como você se me "espirram" de algum círculo ou maldizem o que escrevo ou penso, porque hoje me bastam as poucas pessoas que me tratam bem ou que são honestas o suficiente pra me tratar mal na minha frente.

Se em algum momento vc quiser me dizer o que pensa pessoalmente, ficarei bastante feliz. Críticas, se não me ajudarem a melhorar, pelo menos podem me fazer rir (vantagens da arrogância, sabe como é). Se não, tudo bem também. Espero que você não cometa os mesmos erros que eu cometi. Eu sei que meu caráter não me permite cometer pelo menos esse mesmo que vc comete aqui.

Só uma ressalva: eu ligo, sim pra muita gente. Ligava pra a minha mãe (isso, de fato, é a única coisa no seu comentário que me daria o direito de lhe devolver um tabefe), ligo pra meus amigos, ligo pra a sociedade, ligo pra o que acontece ao meu redor, porque acredito que o que acontece do outro lado de mim e do mundo é também parte de mim. Gostaria de ligar pra você tanto quanto, aparentemente, você liga pra mim. Talvez eu ligue, afinal, não sei quem você é, mas espero sinceramente que não. Posso estar enganado, mas acredito que não valha a pena.

Espero que um dia você compreenda o porque eu escrevi esse texto pra minha mãe, assim como o porque eu gastei dez minutos da minha madrugada escrevendo pra você. E espero que você leia os outros textos neste blog e que eles te sirvam pra algo (seja pra relaxar, seja pra canalizar algum ódio pra fora do seu coração).

Acima de tudo, espero que você leia essa singela resposta e tenha uma boa noite.

Cordialmente
Zuni, o Plínio

Fraturas Expostas disse...

Eu acho triste pra caralho alguém macular um post desses pra dizer qualquer bobagem. Este post só pertencia a você, Zuni, até os comentários deveriam ser desabilitados. Este post é um registro, um registro de uma história que não é de todos, é um registro seu, em que ninguém deveria "poemizar" ou polemizar.

Porque nada é digno da morte, nem pode se aproximar simbolicamente.

(Me parece que aqueles babacas com que você convivia na época da Casa das Rosas ou da Secretaria resistiram ao tempo, mas não à memória. Quem é inesquecível, para o bem ou para o mal, e se orgulha disso, nunca se torna um anônimo.)

Anônimo disse...

Que texto foda!
Foi às lágrimas copiosamente.