Deixar-se à deriva é desprender-se. Não basta ordenar-se o relaxar, esforço inútil de não esforçar-se, como a quem se diz “não pense no elefante”, e logo, no espaço impossível do silêncio sintético, se trombam manadas de paquidermes em pernas de pau equilibrando nas presas contas atrasadas, pendências amorosas, rancores de estimação e todo tipo de engasgo, como parasitas de elefantíase nas artérias do inconsciente. Vasos linfáticos afogados em pesares pesam mais do que a água do mar. Deixar-se à deriva é derivar-se em devir.
Boiar de olhos fechados é dissolver-se. Respirar no ritmo da onda que embala a cabeça solta, ossos de alga, água lambendo pálpebra. Decompor toda fronteira de forma em sensação pura, abraçar o abstrato, abstrair-se e fluir como célula no fluxo sem forma do existir. Ondejar no útero primordial.
Paciência. Sincronizar coração e oceano. Silêncio. Sal e sol sugando o suor. Entrega. Afago de mar ama arranhando. Ofega. Êxtase de apartar-se. Liberta. Suster-se sobre si como suspiros sustém o inexprimível.
É arte dos aeromantes o boiar de olhos abertos. Espinha do espírito inventivo, aeromancia é arte inata de desdobrar-se em céu. Ler telas brancas desenhando-se epopéias, como crianças que brincam de imaginar. Foi trabalho dos primeiros aeromantes a identificação de ninhos de deuses nas nuvens, e desde então gerações de poetas colhem teogonias nas manhãs de temporal.
Sublimar-se, e o corpo navegando livre. Galerias caleidoscópicas de esculturas dançantes: um rosto macio te sorri cúmplice; um dragão egolindo o sol evapora pouco a pouco entre filetes de luz; presságios de colheitas e catástrofes relampejando no horizonte. Gingado de mar mimetizando a maciez da nuvem. Boiar de olhos abertos é voar.
Há quem tema o perigo de perder-se pra além da arrebentação, o que é uma bobagem. Sim, é fato sabido que sereias vivem, invisíveis aos olhos secos, nas ondas que puxam como paixões, nas paixões que afogam como poemas, nos poemas que fecundam como o mar, e é sabido desde sempre que almas flutuantes tendem à sedução de seus cantares, mas é um erro ingênuo chamar de perder-se o que é se encontrar. Boiar é ser bússola de si.
Ensaio as artes de boiar buscando o passo leve em terra firme.
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