Acordei e o clima
era de luto. Na tela do meu celular piscava uma mensagem. Quando
descobri a horrível dor coletiva pela trajédia Chapecoense, um
boieng já pesava no meu peito. Foi de madrugada, pouco antes de os
motores do avião se aquecerem, que minha amiga de tantos anos sofreu
um ataque cardíaco e morreu.
É curioso como a
morte pode ser dolorida e reconfortante ao mesmo tempo. Estranho que
um vazio tão avassalador seja justamente o que dá sentido e sabor à
vida. Tão simples, definitiva e certa, o ponto mais banal de toda
trajetória e, ainda assim, são infinitas as vivências decorrentes
de uma morte a afligirem os que sobram vivos. Acima de tudo,
contraditório.
Era atriz,
gargalhava com pompa e brilho, rainha da noite. Quando a conheci,
tinha começado a frequentar o Madame Satã na esperança de
conversar com esses tais góticos de que tinha ouvido tanto falar.
Amanda, minha primeira namorada, havia acabado de morrer, e eu estava
morando no apartamento da minha madrinha, também recém falecida. Na
época, o que eu precisava era emborcar um Belo Monte de vinho barato
e falar sobre o inexorável findar da existência com mais gente
morbidamente obcecada e igualmente embriagada. Tinha também o lance
das roupas de couro. No fim, o lugar não me trouxe grande
esclarecimento sobre a morte, mas me deu alguns bons amigos, o que é
um método eficaz pra se conhecer a vida.
Era uma boa amiga. O
tempo passa, caminhos se desviam, ideias se desencontram, uma briga
e, de repente, nunca mais nos falamos. Lembranças, o bem querer,
carinho e respeito podem continuar no mesmo lugar, mas em qualquer
forma de relação o sentimento é só a espinha de um esqueleto de
muitas pernas. Uma amizade que finda é um tipo triste de morte, como
um assassinato sentimental, encharcado da culpa pela aparente
possibilidade de ressurreição ao alcance de um simples telefonema
que, talvez, só realmente não faça mesmo tanta questão de ser
feito. É triste e um pouco feio, mas é, acima de tudo, muito
contraditório. Numa dessas coincidências acertadas demais pra se
ignorar, ontem mesmo eu contava na mesa de um bar uma história sobre
ela, sempre vestida de luto e de uma alegria tão radiante.
Contraditório e, acima de tudo, tão natural.
Quando morreu Fidel,
não havia amizade pra se lamentar. Nunca dividimos uma garrafa de
rum nem fumamos charutos num café em Havana. Não nos falávamos por
facebook e, se fosse o caso, possivelmente teríamos arranca-rabos
terríveis sobre postagens políticas e blusões da Nike. O homem
Fidel Castro que morreu na sexta feira era já apenas um homem. O
símbolo da revolução, muito maior do que a vida vacilante dos
homens, há tempos se desprendeu da carne e se refugiou no olimpo dos
símbolos. O espírito que moveu a revolução também não foi
sepultado naquela sexta feira, porque esse pertence ao povo de Cuba,
e não à El Comandante. Quem morreu naquele dia foi só um homem que
nunca conheci e, ainda assim, não pude deixar de acender um charuto
e tomar uma Cuba Libre pelos bons tempos que não vivemos juntos.
Na época em que
conheci minha amiga e tantos outros companheiros trevosos, eu estava
em uma espiral emocional por aquele tipo de luto que dilacera. Todos
os dias, Amanda e minha tia Bia morriam de novo. No rádio, nas
esquinas, noite e dia, quando eu chorava e quando eu sorria. Morriam
no futuro, quando eu pensava em entrar em uma universidade sabendo
que não estariam lá na formatura, ou quando pensava sobre morrer,
sabendo que elas não estariam lá para chorar por mim como eu
chorava por elas. Hoje, brindo sorrindo comigo mesmo enquanto penso
sobre elas e os poucos tantos outros lutos que doeram tanto que
viraram uma nova forma de amor.
Quando morreu Fidel,
brindei o enorme sentimento de vida que pulsava de manifestações
emocionadas e orgulhosas de companheiras e companheiros do mundo
todo, unidos. Não a tristeza pela morte, mas a lembrança dos
símbolos de fraternidade, força e esperança que seguem imortais
graças à maior dádiva do conhecimento histórico: o saber ser
possível. Essa fagulha que, como se fosse amizade, me deu forças
pra incendiar pradarias sempre que foi preciso arder.
Hoje faz um ano da
Chacina de Costa Barros, quando quatro policiais militares
assassinaram com cento e onze tiros cinco jovens negros que saíam
para comemorar o primeiro salário do jovem ajudante de supermercado
Roberto de Souza Penha, de apenas dezesseis anos. No primeiro
aniversário de um massacre que deveria enlutar todas as nações, os
quatro assassinos seguem sem julgamento e o país segue em silêncio.
É reconfortante a
beleza do luto pelo Chapecoense. Eu, que nunca fui muito íntimo da
bola, não posso deixar de me admirar pela força da paixão nacional
pelo futebol, algo semelhante à sensação contraditória de
pequenez e engrandecimento que se tem diante do mar. O Futebol
carrega símbolos maiores do que o jogo. São memórias de família,
laços de companheirismo, pilares de identidade, história. Uma forma
de esperança e unidade que, à despeito dos despeitos, é mais
fagulha do que camisa. É uma trajédia, porque são setenta e uma
vidas interrompidas subtamente. É dolorido, porque é assistir a um
time de jovens no auge de sua carreira sendo impedidos pela
aleatoriedade de completar uma trajetória de glória. Mas é
bonito, porque é o nascimento de um símbolo de solidariedade que
vai viver eternamente no panteão dos símbolos.
Hoje, tomaria um
copo de absinto pra brindar minha amiga, mas só tenho aqui essa
cachaça de jambú. Aprendi com ela a tomar absinto, que tinha a cor
dos olhos dela. Me lembrava da minha mãe. Não fui ao enterro. Meu
brinde é pelas lembranças, os pequenos simbolos imortais que nos
fazem maiores do que nós.
Contraditório,
acima de tudo, é o equilíbrio.
Hoje uma amiga
querida me contou que está gravida. Vai ser uma mãe maravilhosa.
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