terça-feira, 29 de novembro de 2016

Contraditório equilíbrio

Acordei e o clima era de luto. Na tela do meu celular piscava uma mensagem. Quando descobri a horrível dor coletiva pela trajédia Chapecoense, um boieng já pesava no meu peito. Foi de madrugada, pouco antes de os motores do avião se aquecerem, que minha amiga de tantos anos sofreu um ataque cardíaco e morreu.

É curioso como a morte pode ser dolorida e reconfortante ao mesmo tempo. Estranho que um vazio tão avassalador seja justamente o que dá sentido e sabor à vida. Tão simples, definitiva e certa, o ponto mais banal de toda trajetória e, ainda assim, são infinitas as vivências decorrentes de uma morte a afligirem os que sobram vivos. Acima de tudo, contraditório.

Era atriz, gargalhava com pompa e brilho, rainha da noite. Quando a conheci, tinha começado a frequentar o Madame Satã na esperança de conversar com esses tais góticos de que tinha ouvido tanto falar. Amanda, minha primeira namorada, havia acabado de morrer, e eu estava morando no apartamento da minha madrinha, também recém falecida. Na época, o que eu precisava era emborcar um Belo Monte de vinho barato e falar sobre o inexorável findar da existência com mais gente morbidamente obcecada e igualmente embriagada. Tinha também o lance das roupas de couro. No fim, o lugar não me trouxe grande esclarecimento sobre a morte, mas me deu alguns bons amigos, o que é um método eficaz pra se conhecer a vida.

Era uma boa amiga. O tempo passa, caminhos se desviam, ideias se desencontram, uma briga e, de repente, nunca mais nos falamos. Lembranças, o bem querer, carinho e respeito podem continuar no mesmo lugar, mas em qualquer forma de relação o sentimento é só a espinha de um esqueleto de muitas pernas. Uma amizade que finda é um tipo triste de morte, como um assassinato sentimental, encharcado da culpa pela aparente possibilidade de ressurreição ao alcance de um simples telefonema que, talvez, só realmente não faça mesmo tanta questão de ser feito. É triste e um pouco feio, mas é, acima de tudo, muito contraditório. Numa dessas coincidências acertadas demais pra se ignorar, ontem mesmo eu contava na mesa de um bar uma história sobre ela, sempre vestida de luto e de uma alegria tão radiante. Contraditório e, acima de tudo, tão natural.

Quando morreu Fidel, não havia amizade pra se lamentar. Nunca dividimos uma garrafa de rum nem fumamos charutos num café em Havana. Não nos falávamos por facebook e, se fosse o caso, possivelmente teríamos arranca-rabos terríveis sobre postagens políticas e blusões da Nike. O homem Fidel Castro que morreu na sexta feira era já apenas um homem. O símbolo da revolução, muito maior do que a vida vacilante dos homens, há tempos se desprendeu da carne e se refugiou no olimpo dos símbolos. O espírito que moveu a revolução também não foi sepultado naquela sexta feira, porque esse pertence ao povo de Cuba, e não à El Comandante. Quem morreu naquele dia foi só um homem que nunca conheci e, ainda assim, não pude deixar de acender um charuto e tomar uma Cuba Libre pelos bons tempos que não vivemos juntos.

Na época em que conheci minha amiga e tantos outros companheiros trevosos, eu estava em uma espiral emocional por aquele tipo de luto que dilacera. Todos os dias, Amanda e minha tia Bia morriam de novo. No rádio, nas esquinas, noite e dia, quando eu chorava e quando eu sorria. Morriam no futuro, quando eu pensava em entrar em uma universidade sabendo que não estariam lá na formatura, ou quando pensava sobre morrer, sabendo que elas não estariam lá para chorar por mim como eu chorava por elas. Hoje, brindo sorrindo comigo mesmo enquanto penso sobre elas e os poucos tantos outros lutos que doeram tanto que viraram uma nova forma de amor.

Quando morreu Fidel, brindei o enorme sentimento de vida que pulsava de manifestações emocionadas e orgulhosas de companheiras e companheiros do mundo todo, unidos. Não a tristeza pela morte, mas a lembrança dos símbolos de fraternidade, força e esperança que seguem imortais graças à maior dádiva do conhecimento histórico: o saber ser possível. Essa fagulha que, como se fosse amizade, me deu forças pra incendiar pradarias sempre que foi preciso arder.
Hoje faz um ano da Chacina de Costa Barros, quando quatro policiais militares assassinaram com cento e onze tiros cinco jovens negros que saíam para comemorar o primeiro salário do jovem ajudante de supermercado Roberto de Souza Penha, de apenas dezesseis anos. No primeiro aniversário de um massacre que deveria enlutar todas as nações, os quatro assassinos seguem sem julgamento e o país segue em silêncio.

É reconfortante a beleza do luto pelo Chapecoense. Eu, que nunca fui muito íntimo da bola, não posso deixar de me admirar pela força da paixão nacional pelo futebol, algo semelhante à sensação contraditória de pequenez e engrandecimento que se tem diante do mar. O Futebol carrega símbolos maiores do que o jogo. São memórias de família, laços de companheirismo, pilares de identidade, história. Uma forma de esperança e unidade que, à despeito dos despeitos, é mais fagulha do que camisa. É uma trajédia, porque são setenta e uma vidas interrompidas subtamente. É dolorido, porque é assistir a um time de jovens no auge de sua carreira sendo impedidos pela aleatoriedade de completar uma trajetória de glória. Mas é bonito, porque é o nascimento de um símbolo de solidariedade que vai viver eternamente no panteão dos símbolos.

Hoje, tomaria um copo de absinto pra brindar minha amiga, mas só tenho aqui essa cachaça de jambú. Aprendi com ela a tomar absinto, que tinha a cor dos olhos dela. Me lembrava da minha mãe. Não fui ao enterro. Meu brinde é pelas lembranças, os pequenos simbolos imortais que nos fazem maiores do que nós.

Contraditório, acima de tudo, é o equilíbrio.
Hoje uma amiga querida me contou que está gravida. Vai ser uma mãe maravilhosa.





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