Avenida P cheira pó. Asflato liso, quente, acelera o pulso. Avenida pede passo corrido, cafeína, inala fumaça, fauna de gravata, bicho-grilo vendendo brinco - “olha a arte aê, irmão”, “não tenho tempo”.
Avenida P nunca tem tempo.
Sobrepor sobretudos e sandálias, compromissos e compras, gente e gente e gente em massa corrente. Entre farol e buzina, relógios digitais piscam tempo, temperatura e anunciam: Nike – Just do it! Faça, corra, leia o jornal, engula o café, pendure o crachá, equilibre salto alto, amarre a gravata, não olhe pra trás, escolha um prédio, escolha um ônibus, mantenha a direita livre para circulação, atenção, passageiros, os assentos de cor cinza são preferenciais, respeite esse direito!
Just do it!
2.
Mácula na ordem. Paralelepípedos param a pressa. De-sa-ce-le-raaaaan-doo. Na fresta da pedra espreguiça o mato tímido, verde no cinza. Suspenso, concreto se faz nuvem. Vão e livre, espaço cavando tempo lento na urbe agorafóbica.
Sentar na amurada e ver a vala da nove de julho. Na ponta oposta da artéria automobilística, cessam motores e soa floresta. Sentar na amurada e observar a mata-ilha, com seu bandeirante de mármore austero que não consegue atravessar a rua. Sentar na amurada e observar o caos. Sentar na amurada é ser cigarra cantando sossego cercado de formigas. Just do it, ants! Sentar e respirar.
Just breathe...
...
No fluxo urbano contínuo, templo de ócio e arte. Não vende ações, não pilota calculadoras, não atualiza softwares, não pavimenta rodovias, não aliena, não buzina, não ordena. Sonhar não põe a mesa (nem precisa), mas alimenta. Apenas contemplar o delírio emoldurado numa parede.
Sentar na amurada e contemplar, emoldurada nas colunas vermelhas, as formigas, os relógios, os carros escorrerendo contínuos. Da boca pro rabo e de volta pra boca, regurgita Oruborus tecnocrata. Na proteção das pernas abertas, sentar na amurada e respirar, vão e livre.
6 comentários:
A construção do seu post revela bem a dinâmica de uma cidade, de uma avenida como a P, onde até mesmo o que é vão e livre são presos.
"Amurada" eu leio rápido e leio "amuada" me mostrando alguem triste por observar o caos. Alguem fora dele.
Agora, "Agorafóbica" confesso que não entendi...
"Na fresta da pedra espreguiça" a parte mais dificil de ler do texto, intencionalmente, acredito eu...
Bom. Trabalhado, pensado, intencionalmente caótico.
Gostei.
'Urbânico' e lírico.
Rápido, deteriorado e belo. Como isso que nos rodeia...
Belo texto camarada! Bom de ler. Não sei se foi a intenção, mas Lina Bo Bardi ficaria orgulhosa. Teria ela imaginado, há mais de 40 anos atrás, que a avenida que escolheu para sua obra se tornaria o que é hoje? Eu acho - quase aposto - que sim.
Abração.
nada como ter muitos amigos para fingir que gostam.
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