terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Cinco anos depois

Hoje o bolo de aniversário da minha mãe teria 57 velas. Essa semana faz cinco anos desde o seu ultimo sopro.

Hoje li o texto que escrevi no ultimo aniversário dela. Eu mantinha um blog de contos, mas parei de escrever nele depois desse texto, e hoje entendi o porquê. Era um desabafo cheio de raiva e amargura misturadas com tudo o que eu sentia por ela. Angústia por pensar em uma senhora frágil numa cama de hospital, ou perto do fim em casa, num apartamento apertado num fim de mundo. A raiva e confusão que eu sentia pelo modo como meu a pai a tratou nos últimos anos, a solidão e a dor que ela sentiu envenenaram a minha lembrança, e por um tempo me deixaram só com a imagem de uma mulher que sofria.

Precisei de cinco anos, duas idas à Palestina, uma quebra definitiva da relação com meu pai, muita cachaça e muita lágrima pra lavar a minha memória.

Hoje, quando penso na minha mãe, lembro do gosto dos chocolates que ela fazia em casa e que vendíamos de porta em porta no prédio e na vizinhança quando eu era criança. Lembro de como ela se vestia de bruxa no halloween e ia pedir doce nos vizinhos.

Lembro de quando eu odiava ir pra a pré-escola, epra me tranquilizar ela vestiu um uniforme xadrez, fez trancinhas no cabelo loiro, comprou mochila e lancheira e me convenceu de que ela também ia pra aula.

Lembro de como ela era maluca por lojas de R$1,99, de como comprava roupas multicoloridas no bazar da igreja e desfilava hippie por aí. 

Lembro de como ela conversava com os animais, e de como deixava pires de leite na janela pra as fadas do jardim, de como pintou flores e pássaros nos móveis da cozinha, escreveu uma oração à Pacha Mama com giz na parede e colou com durepox um cristal no cabo da colher de pau pra energizar a comida.

Minha mãe frequentava centro espírita, missa, terreiro, coven wicca, templo budista, tirava tarot, defumava a casa, acendia vela de sete dias, fazia sinal da cruz quando passava na porta da igreja e nunca questionou meu ateísmo precoce.

Minha casa era albergue da molecada do bairro. Minha mãe aconselhava, alimentava e abrigava todos os meus amigos. Até hoje, marmanjo com barba na cara e filho no colo só se refere a ela como Tia Ana, com um respeito e carinho que só tem quem também se considera filho.

Minha mãe deixou a faculdade quando eu nasci, e por anos me culpei pela arquiteta que ela não foi. Ao invés disso, ela foi dona de casa, empregada, babysiter, doceira, massagista, professora de inglês, taróloga, revendedora Avon e pau pra toda obra de todos os negócios e ciladas que meu pai armou ao longo da vida. Hoje finalmente entendo que minha única parte de culpa foi tê-la feito mãe, e talvez ela até tenha se divertido mais assim do que debruçada na prancheta dentro de um escritório.

Pouco antes de morrer minha mãe soube que meu irmão tinha passado na USP. Foi o ultimo presente de aniversário, e certamente isso fez com que aquele fosse um bom aniversário, à despeito de todos os inconvenientes de se estar morrendo. Quando vejo agora meus alunos comemorando o resultado do vestibular é nessa alegria e orgulho que ela sentiu do Breno que penso, e choro um pouco por eles e um pouco por ela.

Essa semana faz cinco anos do ultimo beijo que minha mãe me deu.

Então, quem estiver aí desse lado, me faça uma gentileza neste aniversário: dê um beijo na sua mãe por mim.

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo seu texto.
Parabéns.
Sentimento e ternura.
ADOREI !!!

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