Hoje
o bolo de aniversário da minha mãe teria 57 velas. Essa semana faz
cinco anos desde o seu ultimo sopro.
Hoje
li o texto que escrevi no ultimo aniversário dela. Eu mantinha um
blog de contos, mas parei de escrever nele depois desse texto, e hoje
entendi o porquê. Era um desabafo cheio de raiva e amargura
misturadas com tudo o que eu sentia por ela. Angústia por pensar em uma senhora frágil numa cama de
hospital, ou perto do fim em casa, num apartamento apertado num
fim de mundo. A raiva e confusão que eu sentia pelo modo como meu a
pai a tratou nos últimos anos, a solidão e a dor que ela sentiu
envenenaram a minha lembrança, e por um tempo me deixaram só com a
imagem de uma mulher que sofria.
Precisei
de cinco anos, duas idas à Palestina, uma quebra definitiva da
relação com meu pai, muita cachaça e muita lágrima pra lavar a
minha memória.
Hoje,
quando penso na minha mãe, lembro do gosto dos chocolates que ela
fazia em casa e que vendíamos de porta em porta no prédio e na
vizinhança quando eu era criança. Lembro de como ela se vestia de
bruxa no halloween e ia pedir doce nos vizinhos.
Lembro
de quando eu odiava ir pra a pré-escola, epra me tranquilizar ela vestiu um uniforme
xadrez, fez trancinhas no cabelo loiro, comprou mochila e lancheira e
me convenceu de que ela também ia pra aula.
Lembro
de como ela era maluca por lojas de R$1,99, de como comprava roupas
multicoloridas no bazar da igreja e desfilava hippie por aí.
Lembro
de como ela conversava com os animais, e de como deixava pires de
leite na janela pra as fadas do jardim, de como pintou flores e
pássaros nos móveis da cozinha, escreveu uma oração à Pacha Mama
com giz na parede e colou com durepox um cristal no cabo da colher de
pau pra energizar a comida.
Minha
mãe frequentava centro espírita, missa, terreiro, coven wicca,
templo budista, tirava tarot, defumava a casa, acendia vela de sete
dias, fazia sinal da cruz quando passava na porta da igreja e nunca
questionou meu ateísmo precoce.
Minha
casa era albergue da molecada do bairro. Minha mãe aconselhava,
alimentava e abrigava todos os meus amigos. Até hoje, marmanjo com barba na cara e filho no colo só se refere a ela como Tia Ana, com um respeito e
carinho que só tem quem também se considera filho.
Minha
mãe deixou a faculdade quando eu nasci, e por anos me culpei pela
arquiteta que ela não foi. Ao invés disso, ela foi dona de casa,
empregada, babysiter, doceira, massagista, professora de inglês,
taróloga, revendedora Avon e pau pra toda obra de todos os negócios
e ciladas que meu pai armou ao longo da vida. Hoje finalmente entendo
que minha única parte de culpa foi tê-la feito mãe, e talvez ela
até tenha se divertido mais assim do que debruçada na prancheta dentro de um escritório.
Pouco
antes de morrer minha mãe soube que meu irmão tinha passado na USP.
Foi o ultimo presente de aniversário, e certamente isso fez com que aquele fosse um bom aniversário, à despeito de todos os inconvenientes de
se estar morrendo. Quando vejo agora meus alunos comemorando o
resultado do vestibular é nessa alegria e orgulho que ela sentiu do
Breno que penso, e choro um pouco por eles e um pouco por ela.
Essa
semana faz cinco anos do ultimo beijo que minha mãe me deu.
Então,
quem estiver aí desse lado, me faça uma gentileza neste
aniversário: dê um beijo na sua mãe por mim.
Um comentário:
Lindo seu texto.
Parabéns.
Sentimento e ternura.
ADOREI !!!
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