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Nem tudo aqui é ficção. Nem tudo é real. Quem se importa?

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Sepultar

Acendi um cigarro e caminhei pelo chão quebrado. Ainda não tinha chegado ninguém, meu irmão e meu pai tinham ido almoçar. As tumbas portentosas disputam um campeonato inutil de tristeza. Anjos de mármore, bustos de metal, frases em latim. O festival de lamentações falsas extrapola o ridículo. Maternidades comemoram o início da vida com salas de tons pastéis e pijamas azuis. Cemitérios lembram o fim com pequenos edifícios de luxo. Ridícula tentativa de compensação do fim.

Os parentes se aglomeravam com caras tristes.
- Você viu como ela está bonita?
- Não. Bonita estava ontem, respirando. Você viu?
Não viu, é claro.

Rezar
- Vamos dar as mãos e nos despedir.
- Eu me despedi quando ela podia me ouvir.

Carregar o caixão.
- Você tem que segurar a alça.
- Ontem eu segurei a mão. Ainda era quente e macia.

A solidariedade quando não se é mais útil.
- Qualquer coisa que você precisar, me liga. Aparece lá em casa.
Eu não tenho o seu telefone. Eu não tenho o seu endereço.
Tirei a gravata e arregacei as mangas. Sorri todo o tempo, e no fim do dia choveu.
Saí pra uma cerveja e joguei sinuca. Caminhei pelo centro de madrugada e dormi num motel barato com a televisão quebrada, cama forrada de plástico verde e alguns conhaques na cabeça.

No dia seguinte não vi os dias seguintes. Só o café, os cigarros e o tempo que ia passar como sempre passou.

Cemitérios são como os vivos mantém vivos seus mortos. O sepultamento acontece dentro de nós.

E continuar a caminhar.

3 comentários:

xxxx disse...

Amei.Ousaria dizer que esse é o mais lindo texto seu que já li.

Forte abraço.

Como disse Fabri:Quero mais!!!

Ana Ziccardi disse...

Amei.Ousaria dizer que esse é o mais lindo texto seu que já li.

Forte abraço.

Como disse Fabri:Quero mais!!!

Anônimo disse...

Não tem jeito. Já li mil vezes, eu sempre choro, até o final.