sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Caçador de Polêmikómón



Cês não tão ligados, mas eu já fui juiz profissional e contrabandista de pokémon bem antes de pokedex chamar smartphone.

Quando eu tinha meus dezessete anos e dividia um quarto de pensão com dois missionários mórmons cariocas no Caxingui, arranjei emprego em uma locadora de videogames. Era um sobradinho bacana, colava uma molecada de condomínio fino o dia todo. Nos fundos ficava uma sala com umas televisões, Playstation, N64 e Dreamcast, além de mais meia dúzia de computadores pra uma turba imberbe equilibrando testosterona brincar de Counter Strike

Nada contra, mas é que eu nunca fui competitivo o suficiente pra jogar essas coisas de tiro multiplayer, não tenho paciência pra tentar passar uma mesma fase de supermario mais do que duas vezes e sou tão nó cego no futebol com joystick quanto com os pés. RPGista das antigas, não me orgulho ao dizer que sou bastante fundamentalista e radical pra achar que confundir Final Fantasy com alguma possibilidade de RPG é um negócio preguiçoso e ofensivo, já tendo, inclusive, rolado vários barraco de bêbado por conta do tabu. Os únicos jogos que terminei foram Zelda e Paciência. Meu negócio era mais analógico, então convenci o dono do lugar a vender livros de RPG e cartas de Magic. Aí ficou vantajoso. Ganhava mal, mas comia paçoquita o dia todo e lia os ivros que eu não podia comprar, então não era nem de longe o pior dos trampos.

Pois que nessa época foi lançado aquele jogo de cartas pokémon, vocês devem lembrar. Existia uma Liga Pokémon Oficial, e alguns pontos de venda do jogo podiam se registrar como Ginásio de batalha. E foi assim que, todas as quintas-feiras, eu passei a fazer um extra até às 22h como juiz de rinha de nerd.

Toda primeira segunda feira do mês chegava na loja um saco de Insígnias oficiais, cadernetas e carimbos, que ficavam sob a minha zelosa tutela. A molecada tinha que ganhar batalhas pra preencher a cartelinha e ganhar a insígnia. Se perdesse uma, só poderia ser considerarado um Mestre Pokémon de verdade verdadeira mesmo no ano seguinte, quando a roda girasse novamente.

Vocês não imaginam o que os boy faziam por esses broche.

Foi uma época muito doida, poder e corrupção comendo solto. A molecada se afogava no jogo, enchia os cornos de doritos com twix e perdia o prumo. Apostava carta brilhante, xingava a mãe, saia no tapa, chorava na mesa, implorava pra a gente não baixar a porta. Era feio de ver. E, quando virava o mês e os carimbos na cartela não batiam a cota da medalhinha, rapaaaaiz…

  

Antes que vocês me julguem, vamos lembrar que o salário mínimo da época era duzentos e quarenta misérias, um maço de de derby azul era $4,25 e camarão que dorme a onda leva. Também não dá pra dizer que eu tivesse fazendo nenhuma fortuna com contrabando de medalhinha, nem que tivesse espoliando a burguesia, de jeito nenhum. Deu foi pra pedir umas pizzas da promoção e eu fiquei bem feliz.

Talvez seja importante frisar, neste ponto, caso você já esteja já desconfiando, que a minha história não tem nenhuma lição de moral lacradora nem é um exemplo de superação e luta. Também não vai propor um modelo de análise da macropolítica por trás das relações entre indústria cultural e mercantilização da alienação através de uma engenhosa porém sutil fábula do efêmero cotidiano. Por favor, não me leve a mal, mas talvez eu esteja só te fazendo perder um pidgey dando bobera na janela, cê liga lá.


Enfim, parecia um bom negócio pra todo mundo. Os papais e mamães estavam felizes porque tinham uma creche de pré-adolescente pra queimar aquele excesso de ritalina no fim do dia, voltando satisfeitos com os brochinho de treinador pra casa ao invés de terem que lidar com mais um motivo de bullying selvagem no colégio particular. E, bom, sempre podia ser crack ou comunismo, né?

A garotada não estava aprendendo latim nem ficando necessariamente mais saudável ou produtiva, não estavam se banhando nas águas redentoras da política estudantil nem inspirando boas fanfics de Armandinhos por aí, mas, bom, sempre podia ser crack ou o canal de youtube do olavo de carvalho, né?

E eu tava pagando as minhas pizzas. Legal, pode até ser que tivesse uma pitada daquela extorsãozinha marota, meio de várzea, em cima das ilusões coloridas e parasitárias criadas por um sistema alienante capitalista de imperialismo cultural pós-moderno neo-liberal tão poderoso que até hoje mantém as mentes dessas vítimas cativas em um ciclo imbecilizante de nostalgia e infantilização progressivas… mas, bom, cada um vive do crack que dá.


Eu avisei, nada de sabedoria milenar nesse textão.

E, enquanto isso, você tá aí seguindo, de boa, procurando pokémon no celular, enquanto podia, sei lá, estar fazendo umas planilhas pro seu chefe não ler, ou correndo em círculos num parque fingindo que tá bem satisfeito por esperar a morte de um jeito limpinho. E tem uma penca de gente agourando que você vai ser assaltado, que a CIA vai te espionar, que é golpe, é anti-vegano, panis et circenses, o seu cérebro vai derreter, as bibliotecas vão virar McDonalds, a juventude está perdida, as bases da cultura humana vão ruir, a revolução foi gourmetizada e jesus está de xico por causa por causa do seu joguinho pagão.

Chato é saber que provavelmente boa parte dessas nóias são verdade e ainda sorrir e resistir à vontade de ir caçar um pokéfodase com a cabeça no trilho do metrô.


É claro que você sabe muito bem (porque é muito óbvio demais da conta) que essa bagaça gritando pika-pika no seu bolso é uma armadilha publicitária sem nenhum propósito socialmente edificante. Você também deve ter uma noção, ainda que recalcada e desnutrida no mais úmido e escuro canto do seu pedantismo egóico autodefensivo, sobre como soa ridículo pegar um monte de gente besta andando à esmo, procurando tartaruga azul no celular, e tentar comparar isso com a ocupação de espaços públicos por causas políticas. É sério, pára, por favor. Mais ainda, eu tenho certeza de que você está mais do que plenamente ciente de que essa porrinha gera infinitilhões de dólares pra uma multinacional maligna que faz bichinhomóns de pelúcia e plástico de descarte hospitalar, usando trabalho semi-escravo na mesmo galpão de sweatshop em que é feito este aparelho no qual você está lendo esse texto nesse preciso momento. Sei lá, me parece um paradoxo moral de importância, profundidade e complexidade grandes demais pra ser compreendido, repudiado, destruído e sepultado simplesmente com o nojinho intelectual de facebook e uma campanha ranheta de boicote à um rato amarelo japonês.

Ou então não, você é o diferentão que tá urubuzando quem pajea pikachu, enquanto podia estar, sei lá, desvendando as sutilezas metafísicas da poética sufi, ou desenvolvendo a vacina pra a histeria coletiva de internet que vem destruindo famílias e gerando memes maravilhosos brasil adentro. E eu sei que você está muito orgulhoso de si por ter desvendado a matrix e mantido sua mente pura diante dessa epidemia zumbi juvenil. Você tem toda a razão em se sentir sufocado por essa máscara virtual fluorescente cheirando chiclete que encobre a realidade e afoga em futilidade todo o incrível potencial da humanidade pra criar e domesticar deuses e universos.

Argh… que angústia deve dar no seu orgulho de espécie, tadinho!


Estamos todos muito agradecidos pelo seu esforço em denunciar o colapso da civilização contemporânea, mas é que talvez você esteja mesmo fazendo mal uso dos seus superpoderes. Quer dizer, não é como se repetir outra vez sobre pokémon a mesmíssima crítica que você já fez esse semestre sobre vídeos de gatinhos, selfies, netflix, signos, filmes de super-herói e starbucks, referenciando sempre meio porcamente orwell e huxley num vórtice infinito de estrutura de redação de escola construtivista meio rasa mas satisfatória para os padrões de correção do mec, fizesse de você um novo Chomsky, saca? Tem coisa melhor pra fazer do que dar esporro nessa juventude alienada usando os mesmíssimos argumentos que meu avô usava pra reclamar dos meus rock do capiroto. Vai por mim, as pessoas muitas vezes sabem que pokémon é só pokémon.


Ah, Péra! Talvez até tenha como forçar uma lição de moral meio mambembe da minha anedota pessoal pra a gente não dizer que perdeu totalmente a viagem. Eu acho que ela é: se você tá jogando pokémon, provavelmente tem uma cadeia grande de gente tirando vantagem de você, porque essa é, fatalmente, a porca miséria que torna inegável e importante todo o rol de apocalipses tremendamente óbvios, porém factuais, que os mensageiros iluminados do Zeitgeist tão aí heróicamente jogando na sua cara. Aceita, é a vida.

Então, se ajudar, pensa que às vezes, numa das pontas dessa cadeia caleidoscópica onde malandro é malandro e mané é mané, alguém tirando vantagem do seu novo velho víciotalvez podia ser eu aos dezessete anos. Sem ressentimentos.

Mas pensa isso só se for ajudar mesmo, tá? Porque, de verdade, eu avisei que isso não era nem de longe uma tentativa tosca de entender a praga pokemon como mais uma pedra de Sísifo a postergar o a aceitação de que a existência é o naufragar na náusea sem propósito do palco do absurdo.

Não baixei o jogo porque não encontrei o treco no negocinho do telefone.

Não senhor, nem é uma comparação que respeita as proporcionalidades e minúcias daquela teoria hardcore de realidade de classes porreta mesmo, roots, pé de fábrica, bolchevique dura e roxa, nua e crua, que você aprendeu lá no acampa do coletivo e tá herculeamente esfregando na fuça da sociedade.
Desculpa qualquer coisa.
Essa modernidade toda líquida e nem uma magicarpa você pegou ainda.
A existência é uma exposição do Romero Brito com palestra.
E nem eu ganhei dinheiro nenhum também aqui.
E a revolução não deu um peido.
Olha lá o pidgey, voltou traveiz o danado!
E nenhum burguês foi enforcado nas tripas de nenhum padre.
E você também nem mexeu naquele relatório lá.
E é sexta mas nem deu metade do expediente ainda.
Helicoca, louça suja, nada acontece, feijoada.
E nem…
e não..
nã.

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