Foi uma manhã fria.
Seis meses antes, o Anticiclone de Bermudas rompia o vórtice polar sobre a Groelândia, e dos confins da Sibéria o ar ártico marítimo marchou pelo mar de Kara, invadiu e sitiou a Europa. Quebravam-se as correias das máquinas, o gelo queimou o trigo e ninguém foi à ópera naquela noite. Blitzkrieg de cristal tomando fronteiras, frestas e ossos.
Conta-se que meu pai não quis se levantar naquela madrugada.E quem pode culpá-lo?Pra que despejar um vivente amargura da vivência com esse tempo horrível aqui fora? Puta crueldade! Além disso,que tipo de pessoa vai vir a ser essa que, não contente em querer começar a ver a vida pela segunda-feira, me escolhe ainda a segunda-feira mais gelada do século? Coisa boa acertadamente não há de ser.
Os meteorologistas consideram o período entre cinco e doze de junho daquele ano como um marco histórico das anomalias climáticas. Não bastasse a severidade dos céus, alargou-se a aberração no espaço e no tempo. Há calamidades que pegam apego.
Conta-se que foi o parto mais tranquilo daquele hospital até então, e quem vê agora tamanha indisposição pra sair da cama jamais imaginaria que, trinta e um anos antes, entregava-se assim, tão liso e desnudo, às intempéries de uma segunda feira frígida. Há quem descubra o conforto no ar que corta.
Treze graus abaixo de zero em Itatiaia, e as austeras Agulhas Negras afofaram-se de neve. Naquele dez de junho, choveu gelo em Brasília pela primeira vez, e no Mato Grosso o gado morreu de orvalho. Nas ausências que germinam suas engrenagens, São Paulo semeava mendigos azuis. Choravam aflitos os nascidos na sombra.
Era lua minguante quando da primeira contração. Que ideia, nascer numa lua minguante, quando bem se sabe que não se corta cabelo, não se começa dieta nem se planta nada que vingue. No céu, a treva que escorre sobre o astro e encobre as crateras na superfície, fio minguado de sarcasmo acenando no longe, cortina que desce noite após noite. Maré alta no lado obscuro. Na piscina de sombra, peixeam os sussurros mais sujos e sublimes.
Segundo o herbalista Scott Cunningham, feitiços de amor nunca podem ser feitos em noite de lua minguante.
Manhã de dez de junho de 1985: trabalhadores sem lenço caminhando contra o vento; combustível congelado nas veias dos automóveis; camponeses castigados pela praga dos gafanhotos de gelo; nas calçadas, cadáveres em caixões de papelão.
Quanta boca não amaldiçoou aquele dia e tudo o que o vento trouxe?
Conta-se que meu pai não quis se levantar naquela madrugada. Dali em diante, era preciso acordar mais cedo para servir-lhe café quente na cama e massagear-lhe os pés. Quando a xícara estivesse fria e os calos quentes, ganhava o direito à uma carona, o troco do lanche ou a assinatura cega em uma advertência escolar por insubordinação.
Quanto coração não deve ter amaldiçoado aquela manhã fria?
O poeta Paulo Leminski conta que um deus também é o vento.
Seis meses antes, o Anticiclone de Bermudas rompia o vórtice polar sobre a Groelândia, e dos confins da Sibéria o ar ártico marítimo marchou pelo mar de Kara, invadiu e sitiou a Europa. Quebravam-se as correias das máquinas, o gelo queimou o trigo e ninguém foi à ópera naquela noite. Blitzkrieg de cristal tomando fronteiras, frestas e ossos.
Conta-se que meu pai não quis se levantar naquela madrugada.E quem pode culpá-lo?Pra que despejar um vivente amargura da vivência com esse tempo horrível aqui fora? Puta crueldade! Além disso,que tipo de pessoa vai vir a ser essa que, não contente em querer começar a ver a vida pela segunda-feira, me escolhe ainda a segunda-feira mais gelada do século? Coisa boa acertadamente não há de ser.
Os meteorologistas consideram o período entre cinco e doze de junho daquele ano como um marco histórico das anomalias climáticas. Não bastasse a severidade dos céus, alargou-se a aberração no espaço e no tempo. Há calamidades que pegam apego.
Conta-se que foi o parto mais tranquilo daquele hospital até então, e quem vê agora tamanha indisposição pra sair da cama jamais imaginaria que, trinta e um anos antes, entregava-se assim, tão liso e desnudo, às intempéries de uma segunda feira frígida. Há quem descubra o conforto no ar que corta.
Treze graus abaixo de zero em Itatiaia, e as austeras Agulhas Negras afofaram-se de neve. Naquele dez de junho, choveu gelo em Brasília pela primeira vez, e no Mato Grosso o gado morreu de orvalho. Nas ausências que germinam suas engrenagens, São Paulo semeava mendigos azuis. Choravam aflitos os nascidos na sombra.
Era lua minguante quando da primeira contração. Que ideia, nascer numa lua minguante, quando bem se sabe que não se corta cabelo, não se começa dieta nem se planta nada que vingue. No céu, a treva que escorre sobre o astro e encobre as crateras na superfície, fio minguado de sarcasmo acenando no longe, cortina que desce noite após noite. Maré alta no lado obscuro. Na piscina de sombra, peixeam os sussurros mais sujos e sublimes.
Segundo o herbalista Scott Cunningham, feitiços de amor nunca podem ser feitos em noite de lua minguante.
Manhã de dez de junho de 1985: trabalhadores sem lenço caminhando contra o vento; combustível congelado nas veias dos automóveis; camponeses castigados pela praga dos gafanhotos de gelo; nas calçadas, cadáveres em caixões de papelão.
Quanta boca não amaldiçoou aquele dia e tudo o que o vento trouxe?
Conta-se que meu pai não quis se levantar naquela madrugada. Dali em diante, era preciso acordar mais cedo para servir-lhe café quente na cama e massagear-lhe os pés. Quando a xícara estivesse fria e os calos quentes, ganhava o direito à uma carona, o troco do lanche ou a assinatura cega em uma advertência escolar por insubordinação.
Quanto coração não deve ter amaldiçoado aquela manhã fria?
O poeta Paulo Leminski conta que um deus também é o vento.
me ensina
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar.
O inverno ensina o silêncio, o cachimbo e a cachaça na xícara de chá. Conta-se a espera no canto da chuva, e quando cessa a neblina, o coração de inverno sente saudade do arrepio.
Quando nasci, veio um vento torto, desses que assobiam na sombra, e disse:
a sofrer sem ser visto
a gozar em silêncio
o meu próprio passar
nunca duas vezes
no mesmo lugar.
O inverno ensina o silêncio, o cachimbo e a cachaça na xícara de chá. Conta-se a espera no canto da chuva, e quando cessa a neblina, o coração de inverno sente saudade do arrepio.
Quando nasci, veio um vento torto, desses que assobiam na sombra, e disse:
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