Semana passada veio o moço da Net me conectar com o mundo. Duas horas antes da visita, recebi uma mensagem dizendo que eu precisava ter em casa um aparelho de telefone fixo. Fui, então, pra a Sta. Efigênia caçar o telefone mais baratinho possível.
Cheguei na primeira loja, na qual fui atendido por um rapaz que provavelmente não tinha idade pra saber quem são as Spice Girls:
— Bom dia, eu preciso de um aparelho de telefone.
— Celular?
— Não, fixo.
— Fixo não tem não senhor, só esses aqui mesmo.
— Mas rapaz, eu to vendo um monte de aparelho de telefone fixo ali atrás, ó!
— Senhor, aqueles telefones são sem fio. Telefone fixo eu não tenho.
— Cara, telefone fixo é o que não é celular. Sem fio é fixo também, porque é um aparelho de linha fixa.
—Hummmm... sei... —estranhou o menino, erguendo a sobrancelha e concordando meio sem concordar, como quem não quer perder tempo ensinando o óbvio pra cliente burro: o sem fio não era fixo na base, então não era fixo, era sem fio, porra! Affff....
Entendi o olhar e preferi não discutir.
Entrei na galeria do lado. No primeiro box, uma parede repleta de diversos aparelhos de telefone fixo, mas todos sem fio e com mais botões e luzinhas do que meu cérebro conseguiria operar e meu bolso conseguiria pagar. Mas perguntar é de graça, então:
— Oi, bom dia. Eu queria um aparelho de telefone fixo baratinho.
— Fixo? Vixiii... tem não, só sem fio e celular. Dá uma olhada nesse quarteirão mesmo, um lojinha pequena só de telefone antigo.
A lojinha era um corredor muito pequeniníssimo mesmo, paredes brancas e prateleiras protegidas por um quadrado de acrílico. Nas gaiolas, dezenas de aparelhos antigos. Principalmente, telefones de disco, robustos, lustrosos e coloridos. Telefones ainda mais cenográficos, aquelas caixas de pendurar na parede, bocal e fone parecidos com os telefones de copo descartável da pré-escola. Perguntei o preço. O mais barato, um redondinho côr de banheiro de vó, custava inacreditáveis cento e trinta e cinco reais. O MAIS BARATO.
— Mas não tem um aparelho mais acessível aí não, moço?
— Aqui, tem esse com fio, simples e moderno. Trinta reais.
— Ô loco! Mas, assim, cê me desculpe a pergunta, mas tem muita saída esses de disco por esse preço?
— É que isso agora é arte, né, filho? Coisa de museu, decoração...
Pois é. Eu nem bem deixei direito de ser jovem ainda, e o aparelho que era raridade e ostentação na minha infância, agora já é arte, decoração, coisa de hipster, e os jovens atendentes da Santa Efigênia mal sabem o que é. O telefone do meu avô, meio quadradão e com aquele tom de bege da parede da escola, fez o mesmo caminho do urinol de Duchamp. Se forçar um pouco a imaginação e bastante a barra, faz pensar na velocidade dos novos paradigmas tecnológicos e coisa e tal, mas acho mesmo que isso só fala é sobre essa dor esquisita no joelho e o pigarro na garganta que tem aparecido de manhã dos trinta pra cá.
No fim, comprei o telefone moderno e baratinho. Perguntei se ele tinha um pedaço quebrado de bocal desses telefones de disco pra me vender, porque eu vi no youtube que dá pra fazer um microfone de gaita ótimo com isso, mas o cara me disse que só trabalhava com produto novo. Não entendi se era só sarcasmo ou se as leis draconianas do mercado já tinham alterado também o conceito de "produto novo" para abranger a categoria "produto mais velho que guaraná com rolha, mas proporcionalmente muito caro".
"Guaraná com rolha". Questão de tempo até a Mão Invisível afanar também todas as expressões que já são velhas e obscuras o suficiente pra virar arte. Ou decoração. Ou publicidade, piada, jornalismo, tanto faz, que, afinal de contas, hoje em dia quem é que sabe o que é que é o quê, né não?
Antes de sair, tomei coragem de encarar a insegurança que a liquidez moderna me inoculara naquela curta epopéia matinal e perguntei pro cara, que afinal parecia ser um especialista na coisa:
— Vem cá, telefone sem fio também chama telefone fixo?
Ele me deu o melhor olhar de "mas-que-perguntinha-mais-idiota-hein-meu-rapaz?!".

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