Uma das lembranças mais bonitas que carrego é das paredes azul escuras do quarto da minha madrinha. Ela me ensinou de Beatles a Chopin, e falava sobre o que sentia com cada música. Minha tia Bia arrastava muitas correntes, coisas que ninguém podia entender, e acho que a música era a única língua que aquela mulher linda e brilhante podia usar pra me mostrar o que sentia. Todos os tons de azul da minha madrinha.
Uma das primeiras memórias musicais que carrego é de uma fita cassete preta com etiqueta laranja que minha madrinha guardava num dos muitos estojos quadrados de couro enfeitados com adesivos hippies e cristãos. Na etiqueta da fita, com azul esferográfico profundo, ela só escreveu Blues. Nessa fita, e em outras naquele estojo, estavam Billie, Ella, Hopkins, Clapton, mas eu me lembro claramente da minha primeira paixão ser B.B. King. Foi a primeira vez que ouvi as paredes, as correntes e os tons bonitos e brilhantes de azul que aquela mulher queria mostrar.
Algum tempo depois, quando tinha dezesseis, fui morar num quarto de pensão dividido com dois mórmons. Eu não tinha computador ou televisão, só um radinho de pilha e um violão, e nenhuma privacidade. Então eu ia pra a sessão de música do Carrefour, onde existiam aquelas torres de metal pra ouvir cds. "Riding with the King" tinha acabado de ser lançado, e eu passava horas lá, ouvindo em pé. Depois de algum tempo as torres se tornaram mais capitalistas, e só se permitiam tocar o primeiro minuto de cada música. Eu continuei indo, bebendo pedaços de Blues que, pela metade, ainda me completavam.
Muita merda aconteceu, minha madrinha morreu e eu me mudei pro seu apartamento, onde ouvia as paredes e as correntes no estéreo que ela deixou. Quando eu não conseguia dormir, era com King que eu conversava. Eu não falava inglês, mal entendia meia porção do que ele dizia com palavras, mas ele e Lucille me explicavam as coisas que ninguém podia entender, e me entendiam.
Nesse apartamento li meu primeiro livro sobre a história do Blues, e isso foi uma das coisas mais importantes que aconteceram na minha vida. Foi o Blues que primeiro me ensinou sobre racismo, solidão, poesia e liberdade. O Blues é o mais próximo que se pode chegar do que sentiram aqueles homens e mulheres. É a dor do chicote e da chacota, separação e superação, desespero e esperança, compartilhadas como se compartilha uma garrafa com quem te ouve pelas frestas dos silêncios.
As mulheres e homens do Blues e jazz foram meus heróis. Ainda assisto mil vezes os mesmos documentários e choro nas mesmas cenas, mais de alegria do que de tristeza. Sempre que as coisas ficavam difíceis, eu pensava em como esses gigantes tiveram correntes e paredes muito mais azuis do que as minhas e ainda assim conseguiam ter paciência e gentileza pra me ajudar a entender a vida.
Eu escrevi dezenas de páginas sobre o que eles me ensinavam, e abri um blog chamado Bebendo Blues, porque era isso que eu fazia quando escrevia. Beber o Blues é tocar as paredes e correntes de todos os tons de alma que existem na música, na poesia, na noite, no sangue, no suor, no silêncio e no fundo de uma garrafa.
Não se aprende o Blues na escola. O Blues não é só uma ordem matemática de sons organizados. O Blues é uma urgência, a língua natural daquilo que não cabe em palavras. Escravos nas plantações de algodão fizeram Blues com arames presos em cabos de vassouras, garrafas e colheres, caixas de charuto, fé e força. Homens e mulheres atravessaram tempos e corações partidos cantando, porque era mais do que vontade. Não é algo que se pode aprender na escola. É preciso beber todos os tons Blues pra fluir o inexprimível.
Eu nunca chorei pela morte de um artista antes, e não acho que seja pela morte dele que chorei hoje. Nunca conheci Riley B. King pessoalmente, nunca o vi num show, e não tinha nenhuma esperança de que o visse, mas nos dias bons e ruins era a voz dele que eu ouvia, e foi com ele que dividi em silêncio tantas garrafas. Foi o Blues que me permitiu entender a Palestina, a injustiça no meu país e o peso da minha cor nessa injustiça. Antes de todos os livros, palestras e passeatas, foram Billie, Ella, Miles, Mingus, Duke e King que me mostraram as paredes, correntes, chaves e portas. Com eles e Janis, Hendrix, Vaughn e Waits aprendi a escrever, gozar, me apaixonar e ir embora quando fosse a hora. Foram eles que me ensinaram a soprar a gaita que soprou nas minhas noites em São Paulo, no Cairo e Beit Sahour, como a flauta da minha madrinha soprava tão blue suas correntes nas paredes daquele quarto azul, e eu nunca vou poder agradecer o suficiente por isso.
O Blues foi meu primeiro amigo, e ainda pinto as paredes dos meus quartos de azul.
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