quarta-feira, 30 de abril de 2008

Te Perdôo



caroline folkenroth 
Sonolenta, observa, com os olhos de rímel manchado, o violão dele descansando sob o sol. Sabia que devia tirá-lo de lá, mas não podia deixar de admirar a beleza da cena, e não seria capaz de mudar de lugar o que ele pôs, mesmo correndo o risco do instrumento envergar pelo calor.

Na verdade, até gostaria de observar a curvatura lenta, gradual da madeira, estalando em prantos a cada milímetro, afogada pelo sufocante mormaço da tarde carioca. Gostaria de apreciar o espetáculo da destruição, delirar, como se fossem os ossos dele se quebrando no lugar do instrumento, mas o facho de luz começava a queimar-lhe as retinas, já fatigadas pela madrugada em claro e pela vodka pra engolir os ponteiros.

Arrastou sua nudez tingida vermelha até as cortinas e de volta ao divã, de onde podia assistir a pálida claridade que escorria inofensiva por baixo dos panos e rastejava difusa.

Pelo véu de fumaça do cigarro contemplava os lençóis. Estudava nas manchas as memórias confusas, ainda intocadas na cama e na carne. Já fazia dois dias (talvez duas semanas, talvez algumas horas, mas lhe agradava a ideia de dias) que estava ali, nua e bêbada. Vestia-se do que restava dele. 
O apartamento permanecia impecável, a não ser pelas moscas que se acumulavam sobre os restos, mas não a incomodavam, diminuíam a sensação de solidão.



O telefone tocou algumas vezes, a campainha nenhuma, mas não faria diferença, não queria falar com ninguém. Lembrava-se dele. Pensava também na aluna de piano, e imaginava quantas das alunas, quantas das apresentações. Como era que dizia mesmo aquela música do Chico? "Te perdôo por te trair". É verdade, ele a havia perdoado tantas vezes por ter que buscar em outros corpos o que não encontrava no seu, em outros colos o que o ciúme tornava áspero. Gostaria de ter parado mais para ouvi-lo ao piano. Agora é tarde.


Caminhou até a sacada, de onde podia ver Copacabana. Pensou nas corridas no calçadão que antes tanto lhe acalmavam, das quais ele tanto desdenhava, até que ela também desistiu de correr. Pensou nos tênis novos, imaculados, que ela lhe deu no natal, mas que nunca entraram nos pés preguiçosos do artista. Pensou, pela primeira vez em muito tempo, em como eram distantes, ela em sua praticidade, ele em sua insensatez; ela em sangue, ele um fantasma.


Pensou em como nunca gostou realmente dos quadros que cobriram o apartamento, junto com a bagunça de partituras e roupas largadas, as conversas intelectualóides e a música afetada, e sentiu que, na realidade, tudo aquilo sempre a entediou, um tédio entorpecente disfarçado de interesse. Pensou em como aprendeu a fala afetada das vernissages para agradar os amigos dele, enquanto se distanciava cada vez mais dos seus próprios amigos. Em como passou paulatinamente a desprezar os velhos amigos em nome da fantasia que vestiu por ele, e que talvez o desprezo fosse vergonha. Sempre por ele. Nunca tinha imaginado que os antigos companheiros talvez também tenham passado a desprezar-lhe, ou talvez a sentir pena dela, presa em sua paixão parasita. E escorreu até a boca a primeira lágrima derramada por si mesma em muito tempo. Tinha gosto de mar.

Súbito, pensava sem conseguir acompanhar o ritmo acelerado da compreensão do que foram os últimos meses, ritmo tão contrário à letargia que incorporou em uma subserviente idolatria. Parou, então, de pensar e começou a sentir, sentir raiva, uma raiva quente, raiva dele, raiva de si, raiva da paixão e da cegueira, raiva de se abandonar por medo de ser abandonada.

Odiou a arrogância, a leviandade, o jeito infantil de tratá-la, o sexo, a indiferença. Odiou, sentiu, praguejou, compreendeu, respirou fundo e soltou o ar. Cerrou os punhos, abriu os olhos, abriu as cortinas e deixou o sol entrar para sair o cheiro de putrefação do corpo frio que envenenava seu ar.

Ligou o chuveiro e viu a maquiagem escorrer com o sabão e se misturar ao sangue coagulado. Riu alto, muito alto e dançou sozinha em sua nova pele. Amassou os cigarros, as cartas, as fotos, rasgou os quadros com a lâmina ainda suja. Jogou a última garrafa em cima da cama e do que restava dele, que agora, inofensivo, já não lhe assustava nem seduzia.

Riscou um fósforo e deixou queimar atrás de si. Assistiu da rua a vida que tinha aprendido a amar inflamar-se em êxtase hipnótico, embalado nas sirenes dobrando a esquina.

Caminhou triunfante em direção à praia. Queria o mar, respirar, afogar em batismo quem fora, despedida silenciosa, sem luto, de uma vida que secou de chorar. 
caroline folkenroth 

Pra nunca mais pedir perdão.

11 comentários:

w. ribeiro disse...

Caro, Plinio.

Confesso que fui um pouco desatento ao ler esse texto ontem, não porque quisesse, mas sim, pelo calor da agitação pré-prova e toda aquela bagunça que consome minha atenção e paciência. Entretanto, li calmamente neste exato momento, e, não posso me furtar a lhe contar que arrepios percorreram toda minha pele seca, cansada e sofrida.
Com toda audácia que me cabe, posso afirmar: Os enigmas, cuidadosamente, escondidos nas entrelinha, não serão percebidos tão facilmente, pois, só quem viveu a situação e sentiu devidamente o fel dos sentimentos que você trata, com muita destreza, terá a sensibilidade necessária para enxerga-los. Estou simplesmente fascinado.

Um grande abraço do seu companheiro de guerras, que ainda estão por vir.

Thaís Cajé disse...

Plinio...
Quando eu leio os seus textos eu fico confusa! Não por não entender o que você diz, ou por ser burra mesmo.. Mas sim porque seus textos são muito profundos!!!
Não tenho nem palavras...

E boa prova [caso não consiga desejar na aula!]
bjosssss =]

http://fantasticamaquina.blogspot.com/

Gabriela disse...

Caracas, Plinio! Meu primeiro pensamento foi: "Quero ser como ele quando eu crescer."

Muito lindo o texto, muito pronfundo. Um misto de misterio e amor. Mas, o amor é mesmo misterioso, não é?

Parabens pelo texto!

cadaversomente disse...

Vou ser realmente sincero ao dizer que me senti infantil diante do texto. Acho que não pude perceber tão bem que era para ser percebido, por ser um texto tão adulto.
Mas posso dizer que gosto de textos assim, com certa dualidade. Veja que até mais ou menos a metade, a suicida está aproveitando o momento, e pouco a pouco vai mudando o rumo de seus pensamentos.

Mas de qualquer modo, gostei MUITO do texto. Vou te contar um segredo: morte em textos é meu fascínio, haha.

Um abraço.

KitFisto21 disse...

amei!
muito profundo, meio mórbido, mas prende o leitor ao texto
isso se encaixaria no perfil das amantes?

M. [doc] B. disse...

Fazia tempo que lia algo de tão boa qualidade. Sinceramente, me tocou várias partes do texto.
Parabéns! (:

Fraturas Expostas disse...

Me visto de tudo o que te resta, de tudo o que você, generosamente, nos oferece.

Te Perdôo.

Alma & Imagem disse...

Nossa Plínio, muito bom o seu texto!!
A que ponto o que chamamos de "amor" nos faz empobrecer a alma e nos perder do caminho que é nosso, do que queremos só por querer alguém... é uma espécie de doença o que realmente não é amor e o que realmente não faz parte de nós...
beijossss

Luciana fátima disse...

Gostei imensamente deste texto! É sutil e agressivo. Melancolicamente amargo. Intenso!

Parabéns!

LF

Letícia disse...

Texto mágico, incrível, sublime, tenso...como se todas as emoções do mundo me invadissem em minutos.
Quase dá para ouvir a água do chuveiro. E me identifiquei com essa parte, pq já cansei de me ver com o rímel borrado, com metade do blush, da sombra.
A água leva muita coisa embora. Literalmente.
Abraço!!!

Anonymous disse...

Uau! Que loucura!
Quer casar comigo?

Parabénssssss, estou com o corpo inteirinho arrepiado.

Beijos
Nathi Jardim

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