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Nem tudo aqui é ficção. Nem tudo é real. Quem se importa?

sábado, 26 de junho de 2010

Réquiem para um romance de barro

Texto antigo pra um caso efêmero
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Tentei segurar-lhe a mão, mas ela recuou incontinenti. Apenas abanava a cabeça numa negação tímida, indicando que minha pele lhe causaria dor, que meu toque lhe causaria repulsa. A questão era se sentiria repulsa por mim ou por sucumbir tola ao toque dissimulado. O frio lhe incomodava. Poderia ter-lhe abraçado, mas preferi acender um cigarro.

Era uma praça fria, iluminada parcamente por uma lâmpada amarelo-avermelhada de mercúrio. Podia ver, por sobre a amurada baixa, a torre da Avenida Paulista, e me esforcei por um segundo pra não sorrir para a beleza da minha cidade, ou não fazer um comentário sobre a estrela solitária que despontava corajosamente entre o mar lamacento que é o céu paulistano. Admirei-me da cena, mas senti que faltava algo. Então eu a vi, chorando, os olhos verdes mesclando-se à vermelhidão dos canais lacrimais expelindo pedaços de ilusão partida – era vidro e se quebrou, era caco e se cortou – sangra, meu amor.

Sob os auspícios severos da minha mal disfarçada indiferença, soluçando impotente, mantinha as mãos apertadas uma contra a outra como pra bombear o sangue que já não queria passar por um coração partido, o desespero infantil em sintonia com a decadência da cidade, a indignação num dueto com a frigidez do cimento de que era feito o banco rachado em que nos sentávamos, o apelo no olhar para o alto, preso num céu sujo de uma estrela única e semi-apagada, se afogando na fumaça como você se afogava na minha indiferença, no meu tédio, no meu asco, o perfume caro que você usava se misturando ao fedor dos muitos mendigos que deveriam dormir ali todas as noites, o soluço, o soluço, o soluço... Ah, o solo de uma lágrima que lhe escorreu o queixo e morreu no peito, onde morrera tanta coisa naquela noite. Violinos violentaram sutilmente nosso silêncio, e eu sorri em Si bemol. Sim, ah, sim...

Ali, finalmente, você foi música e poesia e, pela primeira vez, me senti realmente apaixonado. Nosso romance, qual canto de cisne, na morte se fez arte.

Quase te beijei, só pra prolongar a tua inédita sinceridade, a nova delicadeza da mulher que você quase foi um dia. Quase me apiedei, e então te daria um tapa para lhe devolver a razão, a dignidade, o chão, mas lembrei-me do desprezo que sentia pelo teu sorriso débil de gozo, da crença na minha fidelidade, da tua credulidade de menina apaixonada, e então me mantive no altar que te prendia na minha lama arrogante.

Fraquejei ao não lhe cuspir às faces, e te permiti a sublime tortura de achar que eu era bom demais pra sua quase ingênua estupidez.

Quase triste, amor. Almost blue.

2 comentários:

Marcelo Fabri disse...

Está aí! Mais um petardo com a boa e velha forma de sempre! Muito bom de se ler. Espero mais textos. E não reclame: O cliente sempre tem razão.

Bia disse...

A título de registro. Triste, triste.